“Quem deu crédito à nossa pregação?” (Isaías 53:1)

Nunca antes na história a humanidade foi tão bombardeada por uma quantidade tão grande de mensagens quanto agora. As redes sociais revolucionaram a comunicação e deram voz a milhares de pessoas desconhecidas que, da noite para o dia, se tornaram influenciadores com milhões de seguidores. Claro que, no meio dessa “gritaria” toda, torna-se impossível para cada indivíduo analisar, filtrar e validar todas as mensagens que recebe. Em razão disso, surge a tendência de cada um eleger aquelas fontes cujos conteúdos pareçam mais convenientes ou mais afinados com suas próprias convicções, intenções ou paixões.
Surgem assim as chamadas bolhas, ou seja, ambientes virtuais nos quais cada pessoa envolvida vai ouvir exatamente o que lhe parece mais palatável e, a partir dessa afinidade, receber reforços constantes visando à fixação de certas opiniões, ideias, conceitos, tendências, crenças e, até mesmo, a reformulação da sua própria identidade. Não são poucas as pessoas que se tornaram completamente diferentes após adotarem os discursos e práticas veiculados em suas respectivas bolhas.
A consequência mais grave desse processo de persuasão e fidelização é que as pessoas alinhadas acabam se tornando completamente surdas para mensagens que, mesmo não pertencendo ao seu ambiente, seriam de grande relevância para suas próprias vidas. Isso é um exemplo clássico de dissonância cognitiva, onde as pessoas tendem a evitar informações que contradigam suas crenças e valores, mesmo que isso signifique ignorar a verdade.
Penso que o Profeta Isaías, que viveu cerca de setecentos anos antes de Cristo, sofreu o mesmo tipo de rejeição que vemos hoje em dia. Em tom de lamento, ele questiona: “Quem deu crédito à nossa pregação?” A mensagem que Isaías anunciava não era uma novidade. Havia séculos que os seus compatriotas eram instruídos quanto à importância de se conduzirem em obediência aos mandamentos divinos. No entanto, sua mensagem soava um tanto estranha aos ouvidos do seu povo.
Quem lê o capítulo 53 de Isaías hoje constata a tamanha sublimidade profética de sua pregação, provavelmente como em nenhum outro trecho da Bíblia. Mesmo assim, ele foi ignorado e duramente perseguido. A experiência de Isaías revela que nem sempre a voz mais ouvida é a voz a ser seguida. Prova disto são as “bolhas” do passado que, sem a menor parcimônia, foram usadas para instigar seus adeptos a pedirem anistia para Barrabás e a crucificação do mesmo Messias que fora anunciado pelo profeta Isaías.
Por que parece tão fácil convencer pessoas a aprovarem coisas que hoje se mostram tão absurdas? Penso que a resposta está no processo de depuração natural dos fatos. Muitas vezes a paixão do momento provoca surdez e cegueira temporárias. Nega-se o óbvio, subverte-se a verdade, inflam-se os egos, tudo em nome de uma pretensa causa libertária que faz aflorar o sentimento de revolta contra inimigos fabricados que estariam ameaçando destruir os elementos simbólicos que formam a própria identidade de tais indivíduos.
Como vimos, tudo isso não é algo novo, mas, ainda hoje, os gritos das bolhas soam tão estridentes que, em alguns casos, conseguem até silenciar a verdadeira palavra profética. Isaías que o diga!
Peniel Pacheco é professor de teologia, especialista em docência no ensino superior e mestre em ciências da educação.