Um acordo histórico, após longa espera

Ilustração Mercosul-EU (Edgar Lisboa com IA)

Depois de mais de duas décadas de negociações, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia deixa o papel e entra no campo das decisões concretas. A assinatura representa um marco relevante para a inserção internacional do Brasil e dos países sul-americanos, abrindo um novo ciclo de oportunidades comerciais, industriais e geopolíticas. Não se trata apenas de comércio, é reposicionamento estratégico em um mundo cada vez mais fragmentado.

A abertura de mercados e o salto industrial

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), cerca de cinco mil produtos brasileiros passarão a ter imposto zero no mercado europeu quando o acordo entrar plenamente em vigor. O impacto é expressivo: o acesso da indústria nacional ao comércio mundial salta de 8% para 36%. É um avanço que fortalece cadeias produtivas, estimula investimentos e amplia a competitividade do Brasil em setores estratégicos.

Expectativa positiva, mas com realismo

Heitor Schuch (Crédito: Kayo Magalhães/ Câmara dos Deputados)

O deputado Heitor Schuch (PSB/RS), integrante do Parlamento do Mercosul, avalia o acordo com entusiasmo cauteloso. Para ele, “a longa fase de namoro, de 25 anos, cria as condições para um entendimento mais maduro e equilibrado. Depois de tanto tempo, isso tende a ser uma maravilha”, afirma, destacando que “o acordo abre portas importantes para o agro e para a indústria brasileira”.

Setores sensíveis exigem atenção

Heitor Schuch, no entanto, faz alertas claros. Dois setores, segundo ele, exigem atenção especial: lácteos e vinhos. A Europa é altamente competitiva nessas áreas, com produção em escala, qualidade reconhecida e estoques robustos. “Nós já enfrentamos forte concorrência dentro do Mercosul, especialmente no vinho, e agora abrimos mais uma janela para produtos europeus. O desafio será garantir mecanismos de transição, salvaguardas e políticas de proteção ao produtor nacional”, pondera.

Oportunidades concretas no tabaco e no agro

Por outro lado, há setores que enxergam o acordo com grande otimismo. É o caso do tabaco, forte na região Sul. Segundo Schuch, “o setor já exporta para a Europa e vê a redução de tarifas como um avanço decisivo. Na Europa, a leitura sobre o tabaco é diferente da que se faz em outros mercados. O setor está muito contente e vê chances reais de ampliar negócios”, afirma o deputado.

Um mercado robusto e estratégico

A União Europeia representa um mercado de cerca de 700 milhões de consumidores altamente capitalizados e com limitações produtivas em função do clima, conflitos e restrições ambientais. Esse cenário cria espaço para o Mercosul se consolidar como fornecedor confiável de alimentos, commodities e produtos industrializados, fortalecendo a balança comercial e reduzindo dependências externas.

Muito além do comércio

O acordo também tem peso geopolítico. Ao diversificar parceiros, o Mercosul amplia sua autonomia estratégica e envia sinais claros ao cenário internacional. Como observa Schuch, “a aproximação com a Europa pode servir, inclusive, como alerta a políticas protecionistas de outras potências. O Brasil e seus parceiros mostram que há caminhos alternativos, baseados em diálogo, regras e previsibilidade”.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa