
Suponho que muitos sabem a origem latina da palavra “ano” (annus), mas poucos se lembram de que o termo também está ligado a uma raiz proto-indo-europeia que significa “o que gira” ou “o que volta”, passando a ideia de um ciclo que se repete, como a volta completa da Terra ao redor do Sol. Partindo dessa etimologia, peço permissão para comparar os ciclos temporais do ano com algumas alegorias bíblicas que traduzem ensinamentos espirituais de grande relevância para a vida humana.
A primeira comparação é a que se relaciona ao sol. Uma das figuras de linguagem que a Bíblia utiliza para se referir a Deus é a imagem do sol. O livro de Malaquias (4:2) anuncia que o “sol da justiça se levantará, trazendo cura em suas asas”.
Outro elemento natural que desejo destacar é a terra, associada à pessoa humana. O relato em Gênesis 2:7 afirma que “o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra”. Conectada a essa citação, há a expressão linguística sugerindo que o nome Adão (adamá, em hebraico) significa literalmente: terra/solo. Outras passagens corroboram esse entendimento, como a expressão: “tu és pó e ao pó retornarás” (Gênesis 3:19) e, em Eclesiastes 3:20-22.
O terceiro elemento dessa abordagem relaciona-se às estações do ano, que podem ser comparadas às circunstâncias ou períodos da vida. De acordo com a Bíblia, a existência humana é baseada em ciclos que indicam um tempo apropriado para cada propósito debaixo do sol. Eclesiastes 3:1-8 descreve que há uma ocasião certa para cada ação humana, como tempo de nascer/morrer, plantar/arrancar, chorar/rir, amar/odiar, guerrear/fazer paz. A Bíblia diz, ainda, que a vida humana é como erva do campo que nasce, cresce, murcha e seca. Tais metáforas ressaltam que a vida terrena é efêmera, passageira, e não deve ser tratada como algo permanente (Tiago 4:14).
Pois bem, com base nos elementos anteriormente descritos e considerando as simbologias aplicadas à vida cotidiana, é possível estabelecer alguns princípios úteis para orientar nossas condutas com base na cosmovisão cristã.
O primeiro princípio refere-se à Assimilação e Submissão à Providência Divina. Fazendo um paralelo entre a ordem física (a Terra e o Sol) e a ordem espiritual/moral (o homem e Deus), depreende-se que, assim como a Terra orbita em torno do sol e depende totalmente dele para seguir sua trajetória, o ser humano depende de Deus como Senhor e condutor da História. O salmista expressa esse entendimento ao declarar no Salmo 139, verso 16: “no teu livro todos os meus dias foram escritos, quando nenhum deles havia”. Em outra citação bíblica, no episódio do banquete organizado pelo rei Belsazar, vemos esse mesmo entendimento nos lábios do profeta Daniel ao repreender a audácia do monarca ao profanar os utensílios sagrados pilhados do templo de Jerusalém, diz o profeta: “a Deus, em cuja mão está a tua vida, e de quem são todos os teus caminhos, a ele não glorificaste” (Daniel 5:23).
O segundo princípio é o da Esperança Ativa. Biblicamente falando, a vida humana sem Deus, além de frágil e efêmera, é desprovida de perspectiva de futuro. Isso nos leva ao seguinte raciocínio: do mesmo modo que a vida na terra é orientada e mantida pelo sol, nós também somos regidos e motivados pelos desígnios divinos, não apenas na intenção de garantir nossa sobrevivência física, mental e espiritual, mas, acima de tudo, para desenvolvermos o senso de alternância e de continuidade em relação aos acontecimentos do dia a dia. A cada anoitecer, somos instintivamente realimentados pela expectativa de um novo amanhecer. De igual modo, a cada atitude de resiliência ou de superação diante dos desafios da vida, temos a nossa fé e ânimo reativados para seguirmos em frente. Sem esse senso de renovação e de transcendência, nossa vida seria tragicamente regida pelo conformismo alienante e pela fatalidade, mergulhando-nos no abismo escuro da desilusão. O verso do profeta Isaías 40:31 apresenta uma espécie de antídoto para esse estado de alienação ao declarar: “Mas os que esperam no SENHOR renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão”.
Por último, temos o Princípio da Convergência do Nosso Tempo ao Tempo de Deus. Da mesma forma que o tempo e as estações seguem um cronograma pré-estabelecido e naturalmente bem ajustado, podemos confiar que o tempo do agir de Deus não atrasa nem adianta, pois está perfeitamente sincronizado com o Plano Divino estabelecido “antes da fundação do mundo”. O apóstolo Pedro traz essa fundamentação ao afirmar: “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco…” (2 Pedro 3:9). Nossa ansiedade não faz com que os ponteiros do “relógio de Deus” girem mais rapidamente. Deus não depende de “estado emocional” para agir. Por isso, seu mover não é condicionado ao que é “provável”. O possível é tão plausível para Deus quanto o impossível. Ele faz o que deve e está para ser feito e não apenas o que poderia ser feito.
Como vimos no início, o ciclo anual significa literalmente “o que gira” ou “o que volta”. Nossas vivências devem espelhar esse mesmo entendimento de ciclos contínuos regidos por princípios que fazem a diferença tanto no mundo físico quanto no universo espiritual.
FELIZ ÂNIMO NOVO!
Peniel Pacheco é ex-deputado distrital, professor de teologia, especialista em docência no ensino superior e mestre em ciências da educação.