Recuo de Trump alivia tensão imediata, mas mantém alerta na União Europeia

Os líderes da União Europeia reagiram com cautela ao recuo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que suspendeu nesta quarta-feira (21) a imposição de tarifas adicionais sobre produtos europeus. A decisão trouxe um alívio momentâneo ao bloco, mas não dissipou as preocupações centrais relacionadas à soberania, à segurança regional e às relações comerciais com Washington.

Dinamarca e Groelândia

No centro das discussões está a situação da Dinamarca e da Groenlândia, tema que voltou à agenda internacional após Trump anunciar que fechou as bases de um acordo com a OTAN envolvendo a ilha. Embora o presidente americano não tenha detalhado os termos, indicou que as negociações tratam de questões estratégicas de segurança e da presença militar no Ártico. “É um ótimo negócio para todo mundo. Envolve segurança nacional e internacional. Recebemos tudo o que queríamos, especialmente uma segurança real”, afirmou Trump, acrescentando que o acordo está “bem avançado” e deve ser concluído em breve.

Sistema de defesa antimísseis

Segundo o New York Times, o esboço do entendimento não prevê a anexação total da Groenlândia, mas a cessão de áreas específicas aos Estados Unidos. O plano incluiria a instalação de um sistema de defesa antimísseis, dentro de uma estratégia mais ampla de contenção à influência da Rússia e da China na região ártica.

Impedir avanço de Moscou e Pequim

A OTAN confirmou que o objetivo central é impedir que Moscou e Pequim ampliem sua presença econômica ou militar no território. Ainda assim, Dinamarca e Aliança Atlântica negaram que qualquer parcela da soberania da Groenlândia tenha sido oferecida aos Estados Unidos.

Vigilância permanente

Apesar do gesto de Trump na área comercial, líderes europeus avaliam que o episódio reforça a necessidade de vigilância permanente. O recuo americano reduz a pressão imediata, mas não elimina o desconforto com a postura assertiva de Washington nem as incertezas sobre o futuro do acordo comercial entre Estados Unidos e União Europeia.

Trump e a ruptura da ordem internacional

Maurício Santoro

A avaliação do professor Maurício Santoro parte de um ponto central: o atual comportamento do presidente Donald Trump representa algo muito mais profundo do que movimentos táticos ou bravatas de campanha. Trata-se, segundo ele, de um ataque direto à arquitetura internacional construída sob liderança dos próprios Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Para Santoro, o distanciamento entre Estados Unidos e União Europeia deixou de ser apenas retórico e passou a gerar consequências reais na economia, no comércio internacional e na segurança coletiva, afirmou Mauricio Santoro no Jornal da CBN, antes do recuo de Donald Trump, anunciado nesta quarta-feira, em Davos.

“Essas tensões entre os americanos e os europeus têm consequências muito negativas. Tanto do ponto de vista da economia, do comércio internacional, quanto na questão de defesa, sobretudo pelas preocupações com relação à guerra na Ucrânia e as ameaças representadas pela Rússia.”

Guerra tarifária como instrumento de coerção

O professor destaca que Trump transformou a política tarifária em uma ferramenta de pressão política direta, extrapolando completamente o campo econômico.

“O que o Trump vai fazer, como ele tem feito nesses últimos tempos, é utilizar as tarifas não só como instrumento de política comercial, mas como uma ferramenta de coerção política.”

Santoro lembra que a escalada não é teórica: tarifas que já haviam subido de 2% para 15% foram ampliadas para 25% em países europeus que enviaram tropas à Groenlândia.

“O comércio entre os Estados Unidos e a Europa é enorme. É a maior relação comercial da economia global. Então qualquer tipo de perturbação vai afetar muitas empresas e muitos consumidores, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.”

Há limites institucionais para Trump?

Apesar da concentração de poder, Santoro rejeita a ideia de que Trump governe sem freios absolutos.

“Com toda essa concentração de poderes, ele não é um líder autoritário. Existem instituições e leis nos Estados Unidos que funcionam como freios e contrapesos.”

O professor aponta as eleições legislativas como possível ponto de inflexão.

“Existe a possibilidade de que os eleitores fortaleçam o Partido Democrata e que o Partido Republicano perca uma dessas maiorias, o que tornaria a vida do Trump um pouco mais complicada.”

Segundo ele, até agora Trump governou praticamente sem oposição efetiva.

“O Congresso não exerceu um papel de moderação que poderia ter ocorrido caso houvesse um Partido Democrata mais engajado.”

Rússia e China: os maiores beneficiários

A crise entre Estados Unidos e Europa surge, para Moscou e Pequim, como uma oportunidade estratégica.

“Esse é um cenário ideal para o Vladimir Putin.”

Santoro observa que, mesmo empacado militarmente na Ucrânia, o presidente russo assiste à fragmentação do bloco adversário.

“Cada vez mais os europeus e os americanos não conseguem se entender. Isso é muito bom para a Rússia, isso é bom também para a China.”

Ele relativiza o peso estratégico da Groenlândia para Washington.

“A Groenlândia realmente ganhou importância nos últimos anos, mas ela não é nem de longe um interesse central para a segurança dos Estados Unidos.”

OTAN: força histórica em crise de confiança

Santoro descreve a OTAN como a maior aliança militar da história, mas profundamente tensionada.

“A OTAN tem atualmente 31 países e enfrenta essa enorme crise que é a guerra na Ucrânia.”

As divergências internas se aprofundam.

“Para alguns países, como Polônia e Bálticos, a Rússia é uma ameaça essencial. Para outros, como Itália e Espanha, o foco é o norte da África.”

A maior dúvida hoje, segundo ele, é o compromisso americano.

“A principal preocupação hoje dos europeus é se a Europa ainda pode contar com os Estados Unidos.”

Trump, OTAN e o discurso do exagero

Santoro relativiza as declarações grandiosas de Trump.

“Essa afirmação de que ele fez mais pela OTAN do que qualquer outro líder entra muito nessa lógica do exagero.”

Mas reconhece um ponto real.

“O que faz a diferença para a OTAN é ter uma superpotência, como são os Estados Unidos.”

Ele chama atenção para outro discurso relevante.

“O discurso do primeiro-ministro do Canadá foi a crítica mais substancial feita até agora ao comportamento errático do Trump.”

Santoro define essa fala como simbólica.

“Foi uma espécie de elegia, de canto de morte para essa ordem global construída desde 1945.”

O Conselho da Paz para Gaza e a desconfiança internacional

A proposta de Trump para a reconstrução de Gaza gerou perplexidade.

“Primeiro porque o Trump está cobrando o ingresso de um bilhão de dólares para participar desse conselho, coisa que eu nunca vi.”

Além disso, o presidente se reservou poder de veto absoluto.

“Ainda não está claro qual seria o papel dos grupos palestinos.”

O resultado é cautela generalizada.

“O próprio Brasil foi convidado e até agora não se manifestou, exatamente para esperar mais informações.”

Groenlândia, Venezuela e o risco da escalada

Santoro vê paralelos, mas também diferenças.

“No caso da Venezuela, foi algo mais grave, mais profundo.”

Ele relembra a escalada militar que culminou na captura de Nicolás Maduro.

“Foi uma ação que durou algumas poucas horas.”

Esses sucessos reforçaram a confiança de Trump no uso da força.

“Isso deixou o Trump muito confiante na ideia de que ele pode usar o poder militar para conseguir o que quer.”

O professor alerta para novos focos de tensão.

“Em paralelo à crise da Groenlândia, temos mobilização militar no Golfo Pérsico.”

Um mundo instável e perigoso

Santoro encerra com uma síntese contundente sobre o atual cenário internacional.

“O Trump tem esse estilo muito instável de criar crises, jogar ideias no ar e ver como os parceiros reagem.”

E conclui com uma frase que resume o momento geopolítico:

“É um mundo em que ser aliado dos Estados Unidos é quase tão perigoso quanto ser um adversário, como o Irã e a Venezuela,” concluiu o professor de relações internacionais, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, Maurício Santoro.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa