Maus-tratos em números: uma violência recorrente contra animais

Por Edgar Lisboa

ILustração, Edgar Lisboa com recursos de IA

Os dados oficiais ajudam a dimensionar o problema. Segundo registros de órgãos de segurança pública e de entidades de proteção animal:

  • O Brasil registra mais de 185 mil denúncias de maus-tratos a animais por ano, de acordo com levantamentos do Ministério do Meio Ambiente e de secretarias estaduais.
  • Apenas uma pequena parcela dessas denúncias resulta em inquéritos concluídos e número ainda menor chega a condenações.
  • Estima-se que menos de 10% dos casos denunciados terminem em punição efetiva, seja por arquivamento, falta de provas ou enquadramento penal brando.
  • Em crimes com resultado morte ou extrema crueldade, a pena aplicada raramente ultrapassa dois anos de reclusão, o que permite acordos, penas alternativas ou regime aberto.

O resultado é perverso: a lei existe, mas não intimida. A reincidência é alta e a mensagem transmitida à sociedade é de tolerância institucional à violência.

Indignação que chega ao Congresso

A morte do cão Orelha, em Florianópolis, gerou forte reação nas redes sociais, manifestações públicas em diversas cidades brasileiras e repercussão direta no Congresso Nacional. Senadores e deputados cobraram responsabilização rigorosa dos envolvidos e defenderam mudanças na legislação.

Na Câmara dos Deputados, a Frente Parlamentar em Defesa dos Animais intensificou articulações em busca de soluções mais duras contra agressores. O caso é investigado pela Polícia Civil, que apura a participação de adolescentes, analisa imagens de câmeras de segurança e colhe depoimentos de testemunhas.

A mobilização popular demonstra que a sociedade brasileira já não aceita respostas simbólicas ou discursos vazios diante da barbárie.

Projeto busca resposta proporcional à barbárie

É nesse cenário que ganha força o Projeto de Lei nº 4134/2025, de autoria do deputado federal Ronaldo Nogueira (Republicanos/RS).

A proposta altera a legislação penal para endurecer as penas nos casos de maus-tratos cometidos com requintes de crueldade, especialmente quando há sofrimento prolongado, tortura ou morte do animal. O projeto parte de uma premissa simples e necessária: nem toda violência é igual, e a lei precisa refletir essa diferença.

Ao prever punições mais severas, o texto busca romper com o atual modelo que trata episódios extremos como infrações de menor potencial ofensivo.

Punição branda alimenta a impunidade

Embora o Brasil tenha avançado nos últimos anos ao reconhecer os animais como seres sencientes, a prática revela um sistema ainda leniente. Penas brandas funcionam, na prática, como um incentivo à reincidência.

Quando o agressor sabe que dificilmente será preso, que poderá cumprir pena alternativa ou sequer ser condenado, o efeito pedagógico da lei desaparece. O PL 4134/2025 avança ao propor uma diferenciação clara entre maus-tratos simples e crimes cometidos com crueldade deliberada, alinhando a punição à gravidade do delito.

Caminhos para uma solução mais efetiva

Além do endurecimento das penas, especialistas e entidades de proteção animal apontam medidas complementares indispensáveis para tornar a legislação realmente eficaz:

  1. Tipificação mais clara da crueldade extrema

Definir, de forma objetiva, o que caracteriza tortura, sofrimento prolongado e morte intencional evita interpretações subjetivas e decisões judiciais brandas.

  1. Investigação especializada

Criação de núcleos ou delegacias especializadas em crimes ambientais e contra animais, com peritos capacitados e protocolos padronizados.

  1. Agilidade processual

Prioridade na tramitação de processos envolvendo maus-tratos graves, evitando prescrições e arquivamentos por excesso de prazo.

  1. Registro nacional de agressores

Banco de dados unificado para identificar reincidentes, impedindo que agressores voltem a adotar ou manter animais.

  1. Educação e prevenção

Campanhas permanentes de conscientização, aliadas a programas educativos nas escolas, reforçando o respeito à vida desde cedo.

Respeito à vida como valor civilizatório

Ronaldo Nogueira: “A forma como tratamos os animais revela o grau de humanidade da nossa sociedade.”

Para o deputado Ronaldo Nogueira, o projeto tem base em um princípio ético fundamental.

A frase, na legenda da foto, sintetiza o espírito da proposta: proteger os animais não é uma pauta menor, mas um indicador do nível civilizatório de um país. Sociedades que toleram a crueldade tendem a naturalizar outras formas de violência.

Pressão social e chance real de avanço

Com o retorno dos trabalhos do Congresso, o PL 4134/2025 entra em um momento decisivo. A comoção nacional, as manifestações públicas e a cobrança constante da sociedade — inclusive de brasileiros que vivem no exterior — criam um ambiente político favorável ao avanço da proposta.

Mais do que uma resposta pontual ao caso do cão Orelha, o projeto se consolida como um teste de sensibilidade do Parlamento diante de uma demanda clara e urgente da sociedade brasileira.

Próximos passos

Em análise na Câmara dos Deputados, o PL 4134/2025 integra um conjunto de iniciativas voltadas ao fortalecimento da proteção animal no país. Diante da recorrência de episódios de violência extrema, o endurecimento da lei deixa de ser opção e passa a ser uma necessidade.

Proteção aos animais no Distrito Federal

Em Brasília, a Delegacia de Repressão aos Crimes Contra os Animais, atua forte no cmbate aos maus tratos. Denuncie, pelos diversos canais. Veja abaxo.

No Distrito Federal, a Polícia tem agido cm rigor no combate ao mau trato de animais. Tem ocorrido prisões sempre que há denúncias e flagrantes. A Polícia Civil do DF (PCDF), através da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra os Animais (DRCA), realiza prisões em flagrante e investiga denúncias regularmente.

Exemplos de Prisões Recentes em Brasília

Janeiro de 2026: Um homem de 61 anos foi preso em flagrante após abandonar uma cadela amarrada à cerca do Hospital Veterinário Público de Brasília (HVEP).

Janeiro de 2026: Um homem que se passava por adestrador foi preso, acusado de manter seis cães confinados em caixas plásticas sem água e alimento em Samambaia.

Março de 2025: Um psicólogo suspeito de adotar e matar cerca de 20 gatos em rituais macabros foi indiciado várias vezes por maus-tratos a animais pela PCDF.

Como Denunciar Maus-Tratos a Animais no DF

A legislação brasileira prevê penas severas para quem pratica abusos, que, no caso de cães e gatos, incluem reclusão de 2 a 5 anos, multa e proibição da guarda do animal (Lei Sansão).

Caso presencie alguma situação de maus-tratos no Distrito Federal, você pode denunciar através dos seguintes canais:

Em caso de flagrante (emergência): Ligue imediatamente para a Polícia Militar no 190.

Polícia Civil do DF (PCDF):

Telefone: 197.

WhatsApp da PCDF: (61) 98626-1197.

Denúncia On-line PCDF.

IBAMA (para animais silvestres): Ligue para a Linha Verde no 0800-618080 ou utilize o cadastro de ocorrências no site do Ibama.

Ouvidoria-Geral do DF: Através do portal Participa DF.

Sua denúncia é fundamental para combater esses crimes e garantir a proteção dos animais.

O Brasil cobra, em alto e bom som, que a crueldade deixe de ser tratada como detalhe jurídico e passe a ser enfrentada como aquilo que é: uma afronta à vida e à civilização.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa