A decisão do Supremo Tribunal Federal que tornou definitiva a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado provocou forte reação da bancada gaúcha na Câmara. Em Brasília, deputados do Rio Grande do Sul expressaram visões opostas da defesa da Justiça ao discurso de perseguição política, refletindo a polarização que tomou conta do plenário.
Sanderson: “Questões políticas devem ser decididas nas urnas”

Ubiratan Sanderson (PL/RS), afirma que as condenações são injustas, sem provas materiais, baseadas em ilações, algo que, segundo ele, até ministros do STF reconheceram. Defende que questões políticas devem ser decididas nas urnas, não no processo penal. Critica a pena de 27 anos a Bolsonaro e diz que a prioridade agora é, “buscar com todo o nosso esforço a votação de um projeto de lei que já tem urgência aprovada com 311 votos. Ali tem a anistia ampla, geral e restrita para corrigir o que chama de “maior injustiça da República”.
Bohn Gass (PT/RS): “Extrema direita age por pânico”
O petista considerou o dia histórico e elogiou a autonomia da Polícia Federal, citando operações que atingem tanto facções quanto “colarinho branco”. Afirmou que a extrema direita radicalizou porque teme o avanço das investigações. Criticou a PEC da Blindagem e lembrou que “três deputados da extrema direita estão foragidos”. Para ele, a defesa da anistia e os ataques à PF revelam “pânico de quem sabe que a lei está chegando”.
Fernanda Melchionna (Psol/RS): “Vitória da democracia e da justiça”
A deputada destacou o simbolismo da data, lembrando os 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog. Disse que ver Bolsonaro e generais cumprindo pena “é marco histórico” e representa o início de uma verdadeira “justiça de transição” contra quem tentou romper a ordem democrática. Reforçou que o Congresso deve barrar o PL da Anistia e seguir atento a novos retrocessos.
Bibo Nunes (PL/RS): “Condenação absurda de um inocente”
Na ala oposta, Bibo classificou o julgamento como “kafkiano e inquisitório”. Afirmou que Bolsonaro é vítima de injustiça e que a história provará sua inocência. Disse que o STF teve “faísca de justiça” ao não enviá-lo à Papuda e prometeu: “Vem aí a anistia com muita força”.
Maria do Rosário: “Quem tenta rasgar a Constituição não terá leniência”
Maria do Rosário afirmou que o Brasil “conclui uma etapa importante da Constituição democrática”, ao ver golpistas cumprindo pena. Segundo ela, o país demonstra que quem tenta rasgar a Constituição “não terá leniência”. Criticou ainda o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos/PB), por manter as prerrogativas de Eduardo Bolsonaro, “ausente e atuando contra o Brasil”.
Marcel Van Hattem (Novo/RS): “Golpe é o do STF”
O deputado afirmou que há “um golpe institucional consumado” pelo Supremo, que estaria prendendo pessoas “inocentes e perseguidas”. Criticou a prisão definitiva e pediu a votação imediata do PL 2162/23, que concede anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Para ele, é hora de “virar a página”.
Outros gaúchos: indignação ou alívio
Parlamentares reservadamente também comentaram a decisão. Integrantes da base governista afirmam que a Justiça apenas aplicou regras aprovadas pelo próprio Congresso e que a condenação mostra que “ninguém está acima da lei”. Já deputados alinhados ao ex-presidente avaliam que o processo foi acelerado, violou garantias e se baseou em “interpretações políticas”.
Continuidade da disputa
Mesmo entre aqueles que não se manifestaram no microfone, o clima indica continuidade da disputa interna: de um lado, quem vê na prisão um divisor de águas para a democracia; de outro, quem enxerga perseguição e promete intensificar a luta pela anistia.
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Edgar Lisboa