Sessão Solene na Câmara celebra legado do escritor gaúcho
Por Edgar Lisboa
A Câmara dos Deputados realizou, por requerimento da deputada Fernanda Melchionna (PSol/RS), uma Sessão Solene em homenagem aos 120 anos de nascimento e 50 anos de falecimento de Érico Veríssimo, um dos maiores romancistas brasileiros. Presidindo a sessão, no plenário Ulysses Guimarães, na manhã desta quarta-feira (26), Fernanda Melchionna destacou que celebrar Érico é celebrar “não apenas um grande autor, mas um intelectual que compreendeu como poucos a força e a responsabilidade da palavra”.
Participaram da mesa autoridades do universo do livro, da cultura e da biblioteconomia, representantes do Ministério da Cultura, da Câmara Brasileira do Livro, do Conselho Regional de Biblioteconomia, do Memorial Érico Veríssimo e da Companhia das Letras, além da presença de parlamentares e dirigentes da Câmara.
A Força da Palavra de Érico
Melchionna abriu seu discurso com um trecho de Olhai os Lírios do Campo (1938):
“Há na Terra um grande trabalho a realizar… Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram monopólios ambiciosos, guerras e intrigas cruéis.”
A deputada afirmou que este foi seu primeiro contato com o autor e que o livro a marcou por seu compromisso ético, sua defesa da liberdade, da justiça e da coragem, características que, segundo ela, definem o próprio Érico.
“Celebrar 120 anos é celebrar muito mais do que um grande romancista. É celebrar a vida de um intelectual que acreditava no poder transformador das palavras e que nunca se escondeu na torre de marfim”, afirmou.
Érico e a Missão do Escritor
Segundo Fernanda Melchionna, Érico defendia que o artista deveria ser uma “luz, nem que fosse um toco de vela”, capaz de iluminar a realidade, mesmo aquela que provoca “náusea ou medo”.
Vivendo intensamente o século XX, das guerras mundiais às ditaduras, o escritor sempre se colocou ao lado da liberdade e da dignidade humana.
“Para Érico, a literatura tinha compromisso com o ser humano, não com governos ou regimes”, ressaltou a deputada. Ele próprio se definia como humanista socialista, e suas obras revelam um olhar sensível às desigualdades, às dores e aos sonhos do povo.
Os Personagens que Moldaram o Imaginário Gaúcho
A deputada revisitou momentos marcantes da obra de Érico. Lembrou os grevistas e o padre Pedro Paulo em Incidente em Antares, símbolos da luta por direitos.
Resgatou também o “indomável” Capitão Rodrigo, figura lendária que atravessa O Continente com sua espada em punho e espírito inquieto.
E destacou, emocionada, o protagonismo feminino nas páginas verissianas: Nana Terra e Bibiana Cambará, personagens que ecoam a resistência e a força das mulheres gaúchas.
Recordou a célebre frase dita por Bibiana, já idosa, olhando a cidade sitiada de Santa Fé:
“Como o tempo custa a passar quando a gente espera. Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo.”
“Essa frase simples e profunda é o retrato da alma gaúcha e do poder narrativo de Érico”, afirmou Melchionna.
Erico: Contador de Histórias e Inventor de Mundos
A deputada destacou ainda o Érico íntimo, o avô brincalhão que inventava causos para os netos e encantava a família. Mas fez questão de enfatizar que ele era mais do que um contador de histórias:
“Ele inventava mundos e, ao inventá-los, nos revelava.”
Os dramas, amores e contradições de seus personagens são, segundo Melchionna, “reflexos das nossas encruzilhadas e alimento para quem lê”.
Sua matéria-prima eram os sonhos e angústias do povo gaúcho e do povo brasileiro. E suas obras, mais que literatura, eram gestos de resistência, atravessando períodos de censura, perseguição e autoritarismo.
A Coragem de Enfrentar a Censura
Na homenagem, Melchionna destacou episódios emblemáticos da postura de Érico diante da censura.
Recordou quando ele se opôs, por meio de mensagem enviada ao Parlamento e lida por Paulo Brossard, à censura da ditadura militar, recusando a submissão prévia de seus livros.
Lembrou também a recusa do escritor ao título de doutor honoris causa concedido pela UFRGS durante a ditadura. “Érico afirmou que não poderia receber honrarias de uma instituição que cassava seus professores”, destacou.
De Cruz Alta ao Brasil: A Vida que Virou Literatura
A deputada concluiu relembrando a trajetória do jovem que saiu de Cruz Alta, trabalhou em farmácia, ingressou na Editora Globo e se tornou um dos autores mais lidos do país. Sua ascensão, observou Melchionna, refletia a força de sua obra e de seu compromisso com a verdade humana. “Celebrar Érico é celebrar liberdade, coragem e humanidade. É celebrar a literatura como forma de resistência”, afirmou.
Um Legado que Não Cessa de Iluminar
A Sessão Solene, marcada pela emoção e pela presença de representantes da cultura e do livro, reforçou a relevância de Érico Veríssimo para o Brasil.
Para Fernanda Melchionna, seu legado permanece atual e necessário. “Érico iluminou o Brasil com sua escrita e continua iluminando”, encerrou.
Veja a Sessão Solene completa acessando o link:
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa