Era um gigante obsoleto: mas mesmo assim compramos

Por Rogério Lisbôa

Foto: Porta-aviões brasileiro São Paulo escoltado por navios de guerra nacionais em treinamento de patrulha. Imagem: Marinha do Brasil

A imagem acima não é do USS Gerald R. Ford, o maior e mais temido porta-aviões de combate do mundo. O mesmo utilizado pelos EUA no cerco à Venezuela recentemente. De repente você nem sabia que tivemos um grande porta-aviões, né? É algo bem recente. Foch, esse era o nome quando francês de um dos mais importantes navios de guerra brasileiro. O porta-aviões São Paulo, como foi batizado aqui no Brasil, comprado pelas Forças Armadas brasileiras da marinha francesa. Os dois únicos exemplares desse tipo de navio de guerra em nosso país. O outro era o porta-aviões Minas Gerais, que foi depois museu e em 2001 desmontado como sucata na Índia.

Treinamento intensivo dos tripulantes. Decolagens através das catapultas com caças ultrapassando 260 km/h já no final da pista. Radares; armamento adaptado com lançadores de mísseis Simbad de míssil Mistral; metralhadoras Browing para defesa da pista e do navio; patrulha eficiente antissubmarino; velocidade máxima de 60km/h – considerada alta para um porta-aviões; cerca de 6 mil compartimentos; tripulação podendo chegar a 1.920 marinheiros. Esse era o “NAe” São Paulo ( NAe significa “Navio Aeródromo” no meio militar). Números que impressionam bastante.

Mas tinha outro número que incomodava. E também era grande. Quase 33 mil toneladas a bordo de amianto. Material altamente tóxico e cancerígeno. Ué, então é só tirar essa carga do navio. Não é bem assim. O amianto foi utilizado como isolante térmico entre as paredes do São Paulo quando ainda era Foch, na época o material era amplamente utilizado na indústria bélica com essa finalidade, já que não era reconhecido como prejudicial à saúde. Em 2017, porém, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a produção, comercialização e uso de amianto no Brasil.

Antes disso, lá na década de 90, cerca de 55 mil toneladas desse material já haviam sido retiradas dos compartimentos do porta-aviões tornando-o mais “sustentável”. Problema, problema, problema. Pelo menos 10 toneladas de amianto não poderiam ser retiradas porque faziam parte da estrutura principal do navio. Resumindo, se tenta tirar isso, o navio afunda. Quer dizer, um quebra-cabeça sem fim. E dos bons.

Chegando aqui

Em 2000 o Foch, agora São Paulo, é incorporado à frota da Marinha do Brasil. Chega às águas brasileiras em 1º de fevereiro de 2001 partindo pelo Oceano Atlântico, da França, país que se livrou do elefante-branco vendendo para nós. Adquirimos o Foch francês por US$ 12 milhões em setembro de 2000. Deveríamos ter perguntado, já que era um porta-aviões de segunda mão, tipo o que se perguntava quando se comprava um carro usado antigamente: “ – É à gasolina ou é à álcool”. Se fosse a álcool a gente sabia que daria muito problema logo, logo.

Mas ainda assim o São Paulo impressionava. Ele operava com caças AF-1, caças de combate de nome pomposo, Mc Donnell Douglas A-4 Skyhawk. Os nossos AF-1 adquiridos vieram com pedigree, tem história. Foram comprados no final dos anos 90 da Força Aérea do Kwait. Eles participaram de missões de combate em um dos mais importantes conflitos atuais no oriente: a Operação Tempestade no Deserto. Essa mesmo, na Guerra do Golfo, travada entre o Iraque e do outro lado os Estados Unidos liderando países aliados para a derrubada do ditador iraquiano Sadam Hussein.

O porta-aviões ainda operava com helicópteros SH -3 Sea King. Realmente “Reis dos Mares”, já que King é rei em inglês. Helicópteros de missão e identificação antissubmarino e também de busca e salvamento.

Outro helicóptero que atuava no São Paulo era o modelo AH -11 A, aeronaves de alta velocidade, subsônicos, de ataque e reconhecimento, preparados para guerra de superfície e de apoio aos Sea King na localização e afundamento de submarinos. E ainda o UH-12/13 Esquilo, helicóptero leve e rápido de emprego geral, para transporte de pessoal, observação e tarefas múltiplas entre navios.

Quer dizer. Tudo era bonito, pomposo, e histórico no São Paulo. Menos o amianto.

Foto: caça AF-1 pronto para decolagem no porta-aviões São Paulo. Imagem: Poder Naval.

Desmonte

Em fevereiro de 2017 a Marinha do Brasil anuncia que o porta-aviões São Paulo seria desmobilizado da força naval brasileira e desmontado. O alto custo de atualização de um porta-aviões, já considerado obsoleto, foi um dos principais motivos apresentados. Claro, pô, compramos um porta-aviões que já estava com 60 anos de idade, compramos um dinossauro. Do mar.

Tudo bem, tudo bem, em março de 2021 o navio é leiloado para ser desmontado. Em 2022 o São Paulo parte do porto do Rio de Janeiro para ser desmontado na Turquia. Ué, mas se não tem problema no caminho, não é o Foch/São Paulo. E claro que tinha mais problemas.

Próximo ao Estreito de Gibraltar, quase chegando na Turquia, o governo de lá informa que não vai autorizar que o porta-aviões atraque em seus portos por risco de graves danos ambientais. Não esqueceram, né? O São Paulo estava lotado de amianto em seu casco. “Meia volta, volver”. Para o Brasil.

Beleza, agora vai. Vamos desmontar aqui então. Nada. Problema de novo. A Agência de Meio Ambiente de Pernambuco também não autoriza que o porta-aviões São Paulo atraque em território brasileiro pelo mesmo motivo, atolado de amianto.

Não tem para onde ir, lascou. O gigante dos mares fica à deriva por aproximadamente 4 meses nas proximidades do Porto de Suape, Pernambuco.

Tá na hora de afundar

A empresa MSK Maritime Services & Trading, que reboca o São Paulo, informa que a qualquer momento pode soltar os cabos dos rebocadores e deixar o porta-aviões à deriva no mar. Não tinha o compromisso de resolver todo esse problemão criado, era responsável só de rebocar de um lado para o outro o elefante-marinho branco.

A Marinha do Brasil assume então o comando e a decisão. Vamos afundar o porta-aviões São Paulo. Argumenta que com três danos no casco, ele mesmo poderia afundar a qualquer momento e sem controle em qualquer lugar.

É afundado pela Marinha do Brasil em 3 de fevereiro de 2023, a 350 km da costa brasileira. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) queria ter tido mais tempo para estudos dos impactos ambientais futuros que o navio poderia ocasionar com tanto material tóxico a bordo.

Custo previsto para modernizar e tentar sanar todos os problemas do São Paulo se fossem tentar: R$ 1 bilhão. Pagamos quanto, você se lembra? US$ 12 milhões, em torno de R$ 64 milhões em câmbio atual. Foi um bom negócio?

Da próxima vez, já que é veículo usado, tem que perguntar:”Mas vem cá, é a álcool ou à gasolina?”

Foto: Fragata Tamandaré, navio de guerra de alta tecnologia brasileiro. Imagem: Luiz Fernando Nardes

Por outro lado, vou falar num próximo artigo sobre a Fragata Tamandaré, essa sim, zerinho, zerinho. Navio de combate de alta tecnologia. E construída por nós aqui. Brasileiro com orgulho junto a um consórcio experiente internacional. Chega de veículo de segunda mão dos outros.

Rogério Lisbôa é jornalista. Passou por diversos veículos de comunicação de destaque no Brasil. Foi da Rádio Estadão, CBN, Rádio Gaúcha, BandNews FM, entre muitos outros. Matérias especiais com cobertura full time do Mensalão, em Brasília, e até sobre compra de atestados médicos falsos precisando de proteção da Polícia Civil na época

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