Entrar em um país ou na sua casa: o que é certo?

(Ilustração Rogério Lisbôa com IA)

Por Rogério Lisboa

Go-fast e offshore. Como são conhecidas as lanchas potentes de alta velocidade utilizadas pelo tráfico em mares abertos. Usadas para o transporte de drogas têm pouco conforto, mas são de difícil detecção. Muitas das embarcações abatidas pelos Estados Unidos são desse tipo. Como se sabe? É só verificar as imagens do abate e de satélite.

Diversos filmes e documentários já foram feitos mostrando como funciona esse deslocamento em alto mar. Nem embarcações da Guarda Costeira, independente de qual país seja, consegue acompanhar o deslocamento ultra- rápido que pode chegar a 150 km/h dessas lanchas apelidadas no mundo como “narcolanchas”.

Invadir outro país é certo? Acredito que não. Mas também acredito que o errado se sobrepõe ao o que é certo se ninguém fizer nada. Lembro certinho da vitória – segundo foi defendido – do opositor de Nicolás Maduro em 2024 nas urnas, Edmundo Gonzáles, que entrou no lugar de María Corina Machado que foi proibida de se candidatar pelo governo de Nicolás Maduro. Mas ele também foi proibido de assumir.

Pensar com um pouco apenas do cérebro mostra a comemoração de cerca de 8 milhões de venezuelanos refugiados e exilados espalhados pelo mundo com a prisão agora de Maduro.  Brasília mesmo têm muitos que fugiram do regime ditatorial com os filhos e chegaram aqui com uma mão na frente e outra atrás. Quem foge de algo que esta bom? Você fugiria?

Dados de uma instituição respeitada mundialmente, a ACNUR – Agência da ONU para Refugiados , mostram um pouco dessa fuga de onde se nasceu e ter que deixar tudo para trás. “Nós deixamos tudo na Venezuela. Não temos um lugar para viver ou dormir e não temos nada para comer”, diz Nayebis Carolina Figueira, venezuelana de 34 anos que fugiu para o Brasil.

Desde 2014 . segundo dados da ACNUR, houve um aumento de 8 mil por cento no número de venezuelanos buscando o reconhecimento do status de refúgio no mundo. Não, você não leu errado: “8 mil por cento”. O número é assustador. Você fugiria de algo que esta bom? Perfeito? Eu respondo por mim: eu não.

“Caminhamos por 11 dias e tivemos que dormir na rua. Nós saímos de lá porque eles ameaçaram nos matar. Meu irmão foi morto. Eles quase me mataram”, Ana, cidadã  venezuelana hoje no Equador. Depoimento à ACNUR.

Fiz um curso muito completo de cobertura de áreas de conflito e refugiados na sede da ACNUR, em Brasília. Meu sonho quando jornalista recém formado era ser correspondente de guerra. Desisti dessa ideia. Ao ver o que um governo ditatorial pode fazer com um Ser Humano e seus filhos. Como se pode acabar com sonhos torturando e matando sua família. Tive também essa experiência documentada na sede da instituição Repórteres Sem Fronteiras, em Paris. Uma instituição que dá suporte à jornalistas no mundo todo em defesa da liberdade de expressão. Assusta o que um regime de ditadores pode fazer para calar a boca da imprensa e do cidadão. Um triste mapa na parede da Repórteres Sem Fronteiras mostra o número de jornalistas mortos exercendo a profissão.

“Levamos mais de sete dias para chegar ao Peru. Não tínhamos nada para comer no final. Nós tentamos guardar tudo que podíamos para nosso filho, mas ele também ficou mais de 24 horas sem comer. Ele tem apenas três anos”, Gerardo, pai venezuelano hoje com a família no Peru. Diz o cidadão em desabafo à ACNUR.

Esta certo invadir um país para tirar à força um ditador? Transformo a pergunta. Esta certo tirarem você da sua casa, agredir a sua família ou matar um ente querido seu por pensar diferente do sistema? Refletir. Apenas para reflexão. Aqui não é entre esquerda ou direita o debate. Aqui é simplesmente viver com dignidade no seu chão sagrado, a terra onde você nasceu. Sua terra natal. Ou tentar sobreviver sem rumo no terreno minado.

Rogério Lisbôa é jornalista. Passou por diversos veículos de comunicação de destaque no Brasil. Foi da Rádio Estadão, CBN, Rádio Gaúcha, BandNews FM, entre muitos outros. Matérias especiais com cobertura full time do Mensalão, em Brasília, e até sobre compra de atestados médicos falsos precisando de proteção da Polícia Civil na época   

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