
No último domingo de Carnaval, o sambódromo do Rio de Janeiro foi palco de uma cena inusitada: uma ala da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói virou notícia — e meme! — ao apostar numa sátira polêmica. Em plena avenida, sambistas desfilavam dentro de latas de conserva gigantes, com rótulos retratando uma família tradicional (casal heterossexual e filhos). O enredo virou trending topic antes mesmo do último pandeiro silenciar. Mas o barulho não ficou só na Sapucaí. Rapidamente, setores mais conservadores — especialmente grupos evangélicos — reagiram nas redes sociais. Memes pipocaram mostrando famílias dentro de latas de conserva, mas desta vez “abraçadas e protegidas por Jesus”. Uma resposta criativa, porém carregada de recados: “Aqui dentro, ninguém mexe, é Jesus quem guarda.”
O Carnaval, como expressão da arte, mostrou, mais uma vez, seu poder de incomodar. Sem querer querendo, a folia trouxe à tona um paralelo filosófico tão antigo quanto a própria roda — e, até certo ponto, tão atual quanto um meme de TikTok: o mítico grito por liberdade, da caverna platônica ao alumínio hermético dos tempos modernos.
Se Platão visse aquilo, talvez trocasse a pedra pela lata. Lá atrás, em seu famoso mito, uns viviam acorrentados no interior da caverna, só vendo o mundo por sombras projetadas na
parede. Uma realidade limitada, fossilizada pelo medo do diferente, pela recusa ao novo: conforto ou prisão?
Corta para 2026: na versão da Acadêmicos de Niterói, entra em cena a lata de conserva. Hermeticamente fechada, ela guarda alimentos submersos em estabilizantes e conservantes — tudo para manter a “pureza”, mesmo que sacrificando o sabor e o frescor! Assim também pode ser uma família presa a dogmas e padrões cimentados: repetindo modelos, excludentes e pouco saudáveis para a convivência social.
Na caverna, quem decide sair e encarar a luz do sol, enfrenta a estranheza, o julgamento e a desconfiança dos que ficaram. Na “lata de conserva”, romper o lacre é desafio para os corajosos: abrir-se ao mundo, ao novo, exige desapego do medo, mas pode revelar sabores e cores que nenhum conservante consegue preservar.
E onde entra Jesus nessa história toda? Justamente como alguém que, segundo João 10:10, veio para que todos tenham vida — e vida em abundância! Nada mais contrário à lógica da lata de conserva (com todo respeito a quem gosta de sardinha…). O Jesus dos Evangelhos quebrou padrões, acolheu os excluídos, afrontou a hipocrisia e nunca pregou um amor hermético, confinado ou químico.
A mensagem do Carnaval — com ou sem meme — não é sobre atacar religiões, mas provocar reflexão: Será que estamos vivendo para valer? Ou estamos apenas repetindo padrões, embalados a vácuo, em nome de uma falsa moralidade? É tempo de tirar o lacre, experimentar novos sabores, sair da caverna e dançar sob o sol — onde há espaço para o diferente, para a inclusão, para o riso livre.
Porque a vida, assim como o samba de domingo, pede movimento. Pede que a gente sacuda o pó da caverna, abra a tampa da lata e descubra, junto com o outro, as possibilidades de uma existência plena, antissexista, antirracista, feminista e sem rótulos apertados.
No fim das contas, a avenida e a fé devem ser lugares para se viver intensamente, e não para se conservar nostalgia ou sombras na parede. Sejamos ousados para viver com abundância!
Álerson do Carmo Mendonça é Mestrando em Direitos Humanos (UnB) e Juiz de Direito do Tribunal de Justiça da BA.