Ajustes no Saque-Aniversário do FGTS

O secretário-executivo do Ministério do Trabalho e Emprego, Chico Massena, garantiu, em entrevista, que o saque-aniversário do FGTS não será extinto, tampouco sua antecipação. As novas medidas, segundo ele, têm caráter protetivo: visam conter o superendividamento e preservar o saldo do Fundo de Garantia, essencial para habitação e saneamento.São ajustes para proteger o trabalhador”.

Comprometimento até 2056

Massena revelou que há trabalhadores com antecipações de 5, 10, 20 e até 30 anos, alguns com dívidas até 2056, o que compromete quase todo o saldo do FGTS. Em muitos casos, 70% do valor fica com as instituições financeiras, restando apenas 30% ao trabalhador”.

Excesso de antecipações

Além disso, alertou o executivo, “há quem faça várias antecipações pequenas, de R$ 60 a R$ 100, acumulando até 15 operações por ano e parte desses recursos, segundo o secretário, chega a ser usada em apostas online “bets”.

Estrutura do FGTS e o papel dos bancos

Heitor Schuch (Crédito: Kayo Magalhães/ Câmara dos Deputados)

O deputado Heitor Schuch (PSB/RS) analisou as medidas do Ministério do Trabalho sobre o saque-aniversário do FGTS, destacando que o problema central não está no trabalhador, mas no sistema financeiro. “O pessoal pegou o dinheiro do fundo de garantia no banco, e o banco emprestou — é assim que funciona”, argumenta. Para Schuch, a legislação permitiu essa antecipação, e não há irregularidade nisso. “O que tem é o que a lei permite”, afirma, cobrando que o governo não confunda ajustes técnicos com mudanças de garantia que possam prejudicar o trabalhador.

Ministério do Trabalho fora do tempo

Schuch avalia que o Ministério do Trabalho precisa “andar mais depressa no tempo do trabalho”. Segundo ele, o país mudou, especialmente na agricultura familiar, que deixou de ser de subsistência para se tornar um setor produtivo e competitivo. “Hoje há agroindústrias que multiplicaram por dez sua produção, mas a legislação ainda impede a contratação adequada de mão de obra”, critica. O deputado aponta atraso na criação de um grupo de trabalho prometido há dois anos e cobra mais sensibilidade com as novas realidades do campo.

Regras justas e proteção à previdência

Para Schuch, o papel do Ministério é “estabelecer regras corretas e justas conforme o momento”. O atraso nas atualizações legais pode levar à informalidade e enfraquecer as contribuições à previdência. “Os jovens contribuem menos, a população idosa vive mais, e os cofres vão precisar de recursos para pagar aposentadorias e benefícios”, alerta. O parlamentar defende que o governo atue como árbitro, equilibrando interesses, “como num jogo de futebol”, garantindo harmonia entre trabalhadores, produtores e o Estado.

Limites e novas regras

Para frear os abusos, o governo determinou que, até outubro de 2026, o trabalhador só poderá antecipar até cinco anos de saque. A partir de novembro de 2026, o limite cai para três anos, e será permitida apenas uma operação por ano. Também foi criado um teto anual: R$ 500 por antecipação. As novas regras passam a valer em 1º de novembro.

Separar saque e empréstimo

Massena enfatizou a diferença entre o saque-aniversário (direito de retirar parte do FGTS no mês de nascimento) e sua antecipação, que é uma operação de crédito. “O trabalhador pega um empréstimo com garantia no próprio FGTS e, por anos, parte do fundo fica bloqueada para quitar o banco”, explicou. Isso afeta quem pretende usar o saldo no Minha Casa, Minha Vida ou no caso de demissão, já que o valor segue retido por até dois anos após o fim do contrato.

Caixa, bancos e alternativas

Questionado sobre a contradição entre as restrições do governo e a promoção do crédito pela Caixa Econômica Federal, Massena disse que o ministério está em diálogo com os bancos públicos para rever práticas e orientar melhor o trabalhador. Lembrou ainda que há o Crédito do Trabalhador, com juros menores e sem comprometer o FGTS, que já movimenta R$ 62 bilhões.

FGTS em risco

Hoje, R$ 209,4 bilhões do Fundo de Garantia estão comprometidos com operações de saque-aniversário. O secretário defende um processo gradual de transição para extinguir esse tipo de empréstimo no futuro. “O saque-aniversário, em vez de favorecer o trabalhador, tem corroído seu patrimônio. Nosso dever é garantir que o FGTS volte a ser o que sempre foi: uma reserva de segurança e investimento social”, concluiu.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa