Por Isaac Tavares e Sousa

“Nada é mais fugaz que a forma exterior, sua aparência muda como as flores do campo com o aparecimento do outono”.
Anício Mânlio Severino Boécio (480-525), filósofo romano.
Hoje vivemos na pós-modernidade, ou para muitos acadêmicos, sociedade do conhecimento ou ainda sociedade (modernidade) líquida – óbvio que toda sociedade é de conhecimento, melhor dito seria: sociedade de intenso conhecimento e ao mesmo tempo incongruente. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), em sua clássica obra “Modernidade Líquida”, aborda a passagem de uma modernidade sólida, pesada para um tipo de modernidade líquida, mais leve e vaporosa na qual vivemos. O conceito de “líquido” para Bauman, diz respeito em que as relações interpessoais, culturais, sociais, laborais, econômicas e produtivas (e protótipos de consumo) são efêmeras, frágeis, fugazes semelhante aos líquidos.
Tais condições, desta sociedade líquida, cruza-se com o paradigma do pensamento sistêmico. O vocábulo paradigma, do grego parádeigma, tem o significado de um modelo, um padrão. Isso alude em afirmar que todas as sociedades, em todos os tempos, têm funcionado a partir de regras, princípios, leis estabelecidas por paradigmas, inclusive com rebatimento na ética e moralidade. Logo, o pensamento sistêmico encontra o cenário propício para seu estabelecimento, devido ao próprio relativismo e diálogo provindo deste paradigma, na qual denuncia a cientificidade “exata” e “fixa” da modernidade passada – paradigma científico, nutrido pelo pensamento cartesiano. Ainda, o pensamento sistêmico, acolhe a cibernética, no âmbito do social, psicológico e o científico. Embora haja raízes na modernidade, na contemporaneidade o científico adentrou a um modo holístico, em que tudo se encontra interligado. Isso nos conduz a uma releitura do sujeito. Quem é o ser “res cogitans” (coisa pensante, substância pensante) do nosso tempo? Sabemos que hoje, há o domínio das aparências, da imagem perfeita e narcísica. As teias sociais em rede, estão permeadas de nossas imagens, do “melhor” de nós, de fluidos, de nossas poses e retoques, como se fossemos únicos, tal como Narciso no espelho d’agua, em transe ao ver a sua imagem refletida – as selfs têm o seu teor denunciante. Condição essa que se transfere, também, para a modelagem do corpo, independente da saúde física, em que as academias se tornam em templos narcísicos, assim como a luta, como nunca antes, contra a passagem do tempo em nossas faces e corpos – a indústria da cirurgia plástica agradece, embora, possa, inclusive, criar deformidades. E o que não dizer sobre a monumental produção da indústria cosmética com promessas da inibição da passagem do tempo em nosso envelope corpóreo? A pós-modernidade, se encontra perplexa e embriagada com a sua imagem refletida no rio de Narciso. Ela se encontra revestida de aparências, de brilho, de luzes, de palcos, sempre em busca do melhor aplauso, e quanto maior o anfiteatro maior será o gozo, maior será o engessamento da exterioridade.
A grande contribuição do pensamento sistêmico, se encontra na contextualização dos sujeitos (ele, o outro e os outros), fatos sociais, materiais ou físicos da natureza. Nada mais se isola, em razão de haver uma trama de ligação nos elementos que se evidenciam em um dado fenômeno. Contudo, surge uma reflexão. Essa “liquidez” que nos relacionamentos interpessoais, a partir de uma leitura sistêmica, não estariam em risco de diluição? O outro não se tornaria fugaz e efêmero? Visto que, na modernidade existia ecos de permanência, de objetividade que poderiam balizar (estabilidade) os relacionamentos. Agora, passamos para uma condição de instabilidade e intersubjetividade; ou seja, tudo se complexou. No paradigma religioso (poder sagrado) da Idade Média, existia uma centralidade no divino, o homem criado por Deus; assim o “manto sagrado” abrangia todos meios de vida pessoal e social, além do poder do Estado. Na modernidade, no paradigma científico, Deus ficou à parte – com a contribuição de Darwin –, porém, pode ter ocorrido efeitos de tal abandono, na ética e na moralidade. Hoje, em nossa era, no paradigma do pensamento sistémico, ainda há a manifestação do sagrado em todas as culturas e sociedades. Isso implica que, o pensamento sistémico, justamente, pode abarcar o “sagrado”, em detrimento do “profano” e vice versa. E potencializar diálogos (e tipos de linguagens, em toda a dimensão da semiótica) entre o homem religioso e o a-religioso. O espectro sistêmico, arrasta uma nova leitura do estado psíquico do sujeito, o quanto são funcionais ou não; isso inclui, além da saúde mental, a convivência grupal na dinâmica social. Deste modo, os múltiplos contextos devem ser considerados, avaliados e refletidos, pois uma compreensão solo, poderá excluir elementos substancias que interagem com um tal sujeito. Neste ponto, o pensamento sistêmico, produz a ponte do “ser” para o “estar”; isto é, a passagem do ser no mundo, para o estar no mundo com os outros. No entanto, o espírito narcísico do presente permite esta forma de relacionamento; todavia, apenas na esfera da superficialidade na esteira dos interesses; enquanto na vida privada, há a agonia da solidão, mesmo estando em teia de redes sociais de relacionamentos “com os outros”, ou mesmo em companhia de inúmeras amizades, ou mesmo vida a dois e familiar. Tal solidão no âmago da privacidade, reverbera nos “avatares” de nossas manifestações sociais. Ou, seja, sufocamos a realidade do nosso self, para emergir o avatar, com toda a sua fugacidade e leveza passageira. Os nossos avatares revelam a profunda ausência de qualidade emocional e espiritual. Os transtornos e síndromes sob o foco nosológico psiquiátrico do nosso tempo – basta observarmos os “vade mecuns” psiquiátricos, como o DSM 5-TR, e as sempre novas categorias classificatórias –, denunciam o quanto o gênero humano está cabalmente enfermado, isso sem levar em conta o adoecimento a partir do psicossomatismo. Entretanto, permanecemos no deslumbramento das aparências, daquilo que é efêmero e passageiro; nos contentamos com a agitação social da efemeridade, nos contentamos na prisão da efemeridade do exterior. Evidentemente, que o desenvolvimento da cibernética de comunicação, proporcionou a evolução do pensamento sistêmico, e com ele, o elo das redes sociais, a velocidade da informação e da imagem. Junta-se a essa complexidade, a Inteligência Artificial (AI), com todo o seu poder real e virtual, conectando o real e o imaginário em frações de segundos, oferecendo, aparentemente, respostas para todos os questionamentos da alma. Sem demora, a solução está logo ali, em um clique. Por que “desgastar” a cognição e metacognição se detendo ao aprofundamento reflexivo e na análise? Estamos nos constituindo em seres superficiais, ligados em frágeis teias, leves, mais leves que as plumas ou o bailar suave dos cristais de neve. O cérebro humano se acostumou por milênios em qualquer tipo de atividade ter um princípio, meio e fim. Com a Inteligência Artificial, essa capacidade cerebral pode entrar em crepúsculo, se não surgir um caminho de equilíbrio, em razão de buscarmos respostas para nossas necessidades quotidianas, acadêmicas ou empresariais, entre outras. A reflexão estará comprometida, nos induzindo à fugacidade de nos contentarmos ao arcabouço de soluções combinadas artificialmente. Em outras palavras, o “meio” não se evidencia, não há necessidade; contudo, o cérebro não agradece.
Este estado ôntico superficial e fugaz, se expressa no âmbito da agressividade e violência em todas as instâncias da conduta humana, quer familiares, políticas, esportivas, educacionais, no trânsito, nas corporações, enfim, em todo o dinamismo da esfera social. Além de outros fatores correlatos, o próprio avanço de uma progressão geométrica do feminicídio, denuncia o estado pelicular da deformidade psíquica, resultante do domínio das aparências, em detrimento à qualidade psíquica, que detém a alteridade, respeito e consideração com o outro. Condição essa sequestrada pela fugacidade do apelo exterior e o seu domínio. Com obviedade, em todas culturas do passado houve o comportamento social da valorização extrema das aparências, do exterior; porém, como nunca estamos mergulhados neste oceano da fugacidade em nossa contemporaneidade.
É manifesto que o exterior tem o seu devido lugar à percepção humana. O volume arquitetônico, traduzido em fina estética poética, as artes plásticas, a estética dos útiles pessoais ou domésticos, a moda, o design das naus aéreas e marítimas, os automóveis, e assim por diante, têm o seu resplendor exterior. A produção humana sempre buscou a harmonia estética, isso é um fato. A própria natureza, a fauna e a flora, ou mesmo o céu estelar expõem a sua beleza exterior, assim como as cataratas ou a aurora boreal nos encantam, bem como corpos ou faces humanas em harmonia estética, igualmente podem nos encantar. Entretanto, conforme a nossa percepção de mundo (nosso quadro referencial), todo o exterior que nos envolve – inclusive o outro como nós –, quer seja natureza ecossistêmica ou manufatura civilizatória, podem simplesmente permanecer na imagem aparente, sem a penetração ao objeto, além das aparências, ou por assim dizer, a não ocorrência de uma redução fenomenológica. Na filosofia fenomenológica, podemos dizer que, se nos determos apenas a uma percepção somente ao nível da retina ocular e córtex visual, significa que não houve o epoché; termo vinculado, além da filosofia, identicamente, à psicologia fenomenológica. A redução fenomenológica relaciona-se, deste modo, com o termo filosófico epoché, que é o voltar-se para a análise das coisas manifestacionais. Isso significa estar em estado de suspenção diante de um objeto ou um fato; logo, a “suspensão do juízo”, de um juízo valorativo, restando somente a verdade do objeto observado revelado à consciência, e nisto reside a ciência como fato. No estado de epoché, o observador se afasto do julgamento ou de qualquer análise de valor. Por isso, para a Psicologia, a fenomenologia, torna-se uma ciência descritiva, ordenada pelo princípio filosófico epoché. Tal entendimento da redução fenomenológica (ou colocar em parênteses), consiste em retornar ao mundo da vida, tal qual ela é, bem antes de qualquer julgamento, hipóteses, teorias ou mesmo preconceitos. O exercício de registrar uma observação fenomenológica, requer uma fuga da nossa natural capacidade perceptiva valorativa, que faceia o senso comum. Consequentemente, este estado de suspensão, produz reflexão e metacognição quanto àquilo que é observado, percebido ou vivenciado. Esta condição se tem esvaído de nossa consciência (no sentido egóico), dando lugar à fugacidade de nosso tempo. Com isso o ego se encolhe, perdendo o poder e o gozo de pensar metacognitivamente, de ir além do “exterior”.
Como seria possível soltar-se das amarras da fugacidade exterior (replicada em nosso ego) que impera em nossa presente era? É inequívoco que, o processo educativo, as oportunidades, a obtenção do conhecimento, uma aprendizagem de qualidade e a aquisição da cultura universal, atuam como cortina de fundo como subsídios à capacidade reflexiva, e à possibilidade de não se flexionar à fugacidade. No entanto, esta condição não garante o salto para o estado fenomenológico da epoché. Isso, não significa que aqueles que não tiveram tais oportunidades culturais formativas, não tenham a capacidade de serem envolvidos pela epoché, basta lembrarmo-nos de Paulo Freire em sua “Pedagogia do Oprimido.” Nesta perspectiva, além do invólucro cultural civilizatório, poderíamos cogitar uma vereda para irmos para além da fugacidade e, ainda, para além da epoché?
Suscitando as Escrituras para esta abordagem, e mais especificamente, o encontro de Jesus à noite com o Nicodemos – autoridade religiosa entre os judeus, registrado no Evangelho de João (Jo 3: 1-21) – direciona o caminho. O encontro pode se resumir nas palavres que Jesus disse a Nicodemos, “Necessário vos é nascer de novo”. Sim, somente o novo nascimento, em Cristo Jesus, por sua morte e ressurreição, com a ação do Espirito Santo pode nos libertar verdadeiramente das amarras da fugacidade. Nascer de novo nos capacita espiritualmente a fitarmos as “regiões celestiais” como uma realidade, que transpões os portões da condição humana caída. Porquanto, a efemeridade em todas as instâncias fomentada pela cultura, somente poderia se desmoronar com o novo nascimento. Mesmo o estado da epoché (circundado pelo paradigma sistêmico) seria deixado para trás, em razão do espirito humano, pelo novo nascimento – a conversão –, já tocar os umbrais da eternidade, no tempo de Deus. Destarte, o temporal, onde reside a fugacidade, perderia o seu domínio na alma humana. No entanto, a conversão, sem autenticidade gerada pelo Espírito de Deus, se tornaria apenas em um momento religioso ilusório, entrelaçado com a fugacidade. Todavia, aqueles que passaram pela cruz, pelo novo nascimento, nos termos escriturísticos, poderiam ainda conceber cotidianamente, atitudes, cognições e aforismos fugazes, sem, apesar disso, serem cativos desta condição efêmera. Esta “nova” criação tem o olhar imutável em Cristo Jesus. Mediante isso, implica dizer que a fugacidade se torna insustentável e se dissipa como a leveza da névoa.
Isaac Tavares e Sousa é Doutor em Psicologia, Psicanalista Clínico e Didata, Mestre em Educação, Psicopedagogo e Especialista em Educação Especial.