A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) já iniciou formalmente a retirada dos “orelhões” das ruas do Brasil em 2026, marcando o que muita gente considera o fim de uma era da telefonia pública no país.
O que está acontecendo agora
Em janeiro de 2026, a Anatel iniciou a operação de remoção de cerca de 30 mil orelhões que ainda estavam instalados em ruas e avenidas brasileiras — sobretudo em grandes cidades — e que há anos já vinham sendo pouco usados.
Esses equipamentos, que foram um ícone da comunicação pública por décadas, estão sendo desinstalados porque o serviço tornou-se praticamente obsoleto devido ao uso massivo de celulares e internet móvel.
O que isso significa
A medida não é necessariamente uma “proibição” de existir orelhões, mas sim uma descontinuação da obrigação das concessionárias de mantê-los nas mesmas condições e números de antes. Com a mudança na forma de concessão do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC), as operadoras não são mais obrigadas a manter tantos aparelhos.
Ainda existe um número remanescente de aparelhos — pouco mais de 2 mil orelhões espalhados pelo país — que permanecem por razões específicas, como áreas onde ainda não há cobertura adequada de telefonia móvel.
Por que isso está acontecendo
A queda no uso dos orelhões é drástica: a maioria das pessoas hoje tem celular, o que reduz quase a zero a necessidade de telefones públicos.
A produção de cartões telefônicos foi encerrada e pontos de venda ativos são raros, dificultando o uso tradicional desses aparelhos.
Contexto histórico (conectando com sua memória)
Os orelhões chegaram ao Brasil nos anos 1970, inicialmente com fichas metálicas e depois com cartões pré-pagos. Eles foram uma peça fundamental da comunicação pública por décadas — inclusive momentos que você mencionou nas rádios, como usar orelhões para enviar pautas e boletins na rua. Hoje, com a internet e os celulares dominando a comunicação cotidiana, a função dos orelhões foi superada e agora a Anatel está apenas oficializando essa transição.
Quando o orelhão era redação, estúdio e urgência
A retirada progressiva dos orelhões das ruas, iniciada pela Anatel, encerra oficialmente um ciclo histórico da comunicação no Brasil. Para além da tecnologia, o desaparecimento desses telefones públicos simboliza o fim de uma forma de fazer jornalismo, especialmente no Sul do país, marcada pela presença física, pela rua, pelo ouvido atento e pela urgência da notícia. Os orelhões chegaram ao Brasil nos anos 1970, primeiro com fichas metálicas e depois com cartões telefônicos pré-pagos. Para o cidadão comum, eram acesso à comunicação. Para o repórter de rádio, eram instrumento de trabalho, tão indispensáveis quanto bloco, caneta e gravador.
Jornalismo de rua: fichas no bolso e notícia na cabeça
Lembro bem desse tempo. Como repórter da Rádio Guaíba, em Porto Alegre, começava o dia na redação recebendo as pautas da manhã — e um pequeno saquinho de fichas telefônicas. Depois, era pegar a camionete Brasília e rodar a cidade.
A cada hora, era obrigatório ligar para a redação: confirmar orientações, receber novas pautas, ajustar o foco da cobertura. O orelhão não era apenas um telefone: era ponto de contato com a chefia, ponte com o estúdio, fio direto com o ouvinte.

Quantas vezes parei ao lado de um orelhão para entrar no ar com um boletim, atualizar informações ou repassar dados para o Correspondente Renner, o noticiário que ditava o ritmo informativo do Rio Grande do Sul.
Correspondente Renner, da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que foi eternizado pela voz marcante de Milton Ferreti Jung.,falecido em 28 de jul. de 2019.
O Correspondente Renner: relógio, credibilidade e respeito
O Correspondente Renner era mais do que um programa jornalístico. Era um marco de precisão, credibilidade e autoridade editorial. Narrado pela voz inconfundível de Milton Ferretti Jung, o noticiário entrava no ar rigorosamente no horário.
Tão rigoroso que, se a programação não respeitasse o tempo do Renner, a vinheta interrompia qualquer atração, sem cerimônia. O ouvinte podia, literalmente, acertar o relógio pelo início do programa.
E mais: se um fato relevante acontecesse enquanto o Correspondente já estava no ar, a notícia era redigida ali mesmo, na redação, e entrava como última hora, com Milton Jung anunciando:
“E atenção, última notícia…”
Era informação tratada com seriedade, emoção e responsabilidade — em um tempo sem internet, sem redes sociais e, principalmente, sem fake news
Uma escola de jornalismo chamada Rádio Guaíba
A Rádio Guaíba foi, durante décadas, uma verdadeira escola de jornalismo no Sul do Brasil. Ali se formaram profissionais, se consolidaram padrões éticos e se construiu uma relação de confiança profunda com o público.
Entre os corredores da emissora, circulava um adolescente curioso, de bermuda, fazendo perguntas sobre futebol, Grêmio e jornalismo. Era Milton Jung, filho de Milton Ferretti Jung, que mais tarde se tornaria o principal âncora do Jornal da CBN e chefe de jornalismo da maior rede de rádio de notícias do país, que tive o privilégio de ser Diretor Nacional de Jornalismo e Esportes.
Nada disso foi por acaso. Era herança profissional, convivência diária com a notícia bem apurada, respeito absoluto pelo ouvinte.
Orelhões fora das ruas, mas não da memória
Hoje, com celulares no bolso e informação em tempo real, os orelhões se tornaram obsoletos. A tecnologia avançou, e isso é inevitável. Mas o que não pode ser apagado é o valor histórico desses equipamentos para o jornalismo brasileiro.
Eles foram redações improvisadas, estúdios a céu aberto, linhas diretas com a verdade. Foram testemunhas de uma época em que a notícia precisava ser confirmada, redigida e transmitida com rigor, porque não havia botão de apagar depois.
A retirada dos orelhões encerra uma era. Mas a memória do rádio forte, ético e respeitado no Sul do país, esse permanece, hoje, com tantas outras emissoras jornalísticas, entre elas a Rádio Gaúcha, a Rádio Bandeirantes, entre outras.
Epílogo: bons tempos, bons mestres
Foram bons tempos. Tempos em que o jornalismo era compromisso público.
Tempos em que a voz no rádio tinha peso.
Tempos em que a notícia valia mais do que a pressa.
E os orelhões, silenciosos hoje, ainda ecoam histórias que ajudaram a construir o jornalismo brasileiro.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa