
De todas as unidades estaduais de assistência técnica e extensão rural (ater), tão somente a Epagri em Santa Catarina não está em crise. Em Brasília a política pública de ater está travada e ao que tudo leva a crer deverá continuar assim porque os diversos interesses, sobretudo corporativistas (interesses do conjunto dos funcionários), não conseguem chegar a um consenso ou terem força para fazerem com que essa política pública saia do papel.
Na prática, cada estado segue sua própria trajetória de desmonte desse serviço tão importante para o desenvolvimento rural. Mas o caso do estado de Santa Catarina é digamos, fora da curva. Tornou-se uma referência de evolução bem sucedida de um corporativismo que no fim conseguiu ser mais edificante do que nefasto. Pensando na Epagri lembrei do já distante ano de 1983, quando fui por convite do então chefe regional da Seab de Francisco Beltrão, representando o estado do Paraná na ocasião, participar da inauguração em Chapeco do Centro de Pesquisa para Pequenas Propriedades (CPPP) que hoje se denomina Centro de Pesquisa da Agricultura Familiar (CEPAF) e pertence a Epagri.
E para essa inauguração apareceu aquele que na época era um jovem governador de 35 anos, Espiridião Amin do PDS, ou seja do partido do regime militar, já o Paraná era governado pela oposição por José Richa do MDB. Pois bem, ouvindo o discurso de Espirdião Amin que, para surpresa nossa, defendia o pequeno produtor para “não dar dinheiro para as multinacionais” e optar pelas sementes que a Epagri produzia, falei ao representante do governo do Paraná, e agora, se você falar o que vai dizer: “vou ter que dizer que é isso mesmo…”!
Ou seja, o Espiridião sabia agradar os colonos, mas claro, ele queria também cooptar a pesquisa e a extensão rural e isso já era mais difícil porque o corporativismo, as instituições eram mais autônomas com relação aos governos, zelavam para evitar. ” interferências política”, e tinham como fundador nada mais nada menos do que Glauco Olinger, então presidente em Brasília da Embrater e que hoje ainda vive, com 103 anos, foi inclusive administrador aqui da Cango.
E o que Espiridião inventou para tentar “dobrar” a corporação que resistia em se subordinar a ele: criou um programa chamado “truco catarina”, um campeonato estadual no qual ele próprio jogava baralho com os colonos que iam se destacando. E o governador ligava pessoalmente para os escritórios locais da Epagri, de modo a ter intimidade com a base e assim se atravessava a todos os chefes e grandes chefes da extensão rural. Astúcia é com ele mesmo.