Miriam Belchior (Crédito: Elza Fiúza/Agência Brasil)
O calendário eleitoral de 2026 deixou de ser apenas uma referência distante e passou a produzir efeitos concretos no núcleo do governo Lula. A decisão de ministros estratégicos de deixarem seus cargos para disputar eleições, impõe ao Planalto uma reorganização da máquina pública e acende um debate inevitável. Trata-se de um ajuste administrativo controlado? Ou de um esvaziamento político em pleno exercício do poder?
Início da transição
O anúncio feito nesta quarta-feira (28) pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, de que deixará o cargo para disputar o Senado, marca, simbolicamente, o início dessa transição. A confirmação de Miriam Belchior para assumir a função, reforça a aposta do presidente Lula em quadros técnicos e de confiança, mas não elimina o impacto político da saída de um dos ministros mais próximos do centro decisório.
Dança das cadeiras com peso político
A Casa Civil é o cérebro da articulação administrativa do governo. A troca não é apenas de nomes, mas de perfil: sai um ministro com densidade política própria, e entra uma gestora reconhecida pela eficiência técnica e pela lealdade ao projeto lulista. A escolha preserva o funcionamento interno, mas reduz o peso político do cargo na relação com o Congresso.
Articulação institucional
Raciocínio semelhante se aplica à iminente saída da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que também deve disputar o Senado. Sua substituição por Olavo Noleto, atual presidente do Conselhão, indica continuidade institucional, mas altera o eixo da articulação. Gleisi atua com autoridade partidária e musculatura política; Noleto chega com perfil mais técnico e conciliador.
O fator Haddad
A possível saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda, é a mais sensível. Haddad concentra a interlocução com o mercado, o Congresso e os Organismos Internacionais. A eventual substituição por Dário Durigan, assegura continuidade técnica, mas não elimina a percepção de instabilidade num momento de desafios fiscais. A indefinição prolonga a incerteza e adiciona ruído à política econômica.
Esvaziamento ou reconfiguração
Entre parlamentares do PT e da base aliada, a avaliação é pragmática. Reconhece-se a perda de densidade política com a saída de ministros experientes, mas também o esforço de Lula para evitar paralisia administrativa. As sucessões internas preservam alinhamento ao projeto político e evitam disputas abertas.
Articulação no Congresso
O maior risco, avaliam deputados, não é o esvaziamento formal da Esplanada, mas a redução da capacidade de articulação no Congresso num ano eleitoral, quando o apetite por pautas estruturantes diminui.
Lula no centro
A transição recoloca Lula no centro absoluto da engrenagem política. Com ministros saindo para disputar eleições e outros assumindo perfis mais técnicos, o presidente tende a concentrar-se ainda mais nas decisões estratégicas. É um modelo que ele conhece, mas que exige energia política num momento de desgaste natural do meio de mandato.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa