
A expressão francesa “Laissez faire, laissez passer”, traduzida como “deixai fazer, deixai passar”, é o lema do liberalismo econômico. Em síntese, essa corrente defende que a economia, livre das amarras do Estado, se autorregula sem necessidade de controles governamentais. Neste artigo, proponho uma analogia entre essa lógica e práticas sociais e religiosas contemporâneas.
A tendência de flexibilização dos costumes ganhou força na sociedade ocidental, especialmente a partir dos anos 1960, quando a contracultura proclamava slogans como “É proibido proibir”. Em parte da cultura ocidental passou a não ser de bom tom submeter à disciplina ou punir, com humanidade, aqueles que não querem pagar o preço das suas escolhas ou transgressões.
Destaco, como exemplo, duas práticas de diferentes áreas, que confirmam a dificuldade de fazer valer o mérito ou a ordem pública. A primeira é a progressão continuada dos alunos nas primeiras séries escolares, que é o modelo educacional em que o aluno avança para a série seguinte sem ter atingido o desempenho mínimo na série cursada.
Outro exemplo é a prática do desencarceramento de condenados pela Justiça, que coloca em liberdade apenados, sem efetiva comprovação de reintegração social. Nos dois casos, há fortes evidências da inefetividade desta liberalidade, que podem ser reduzidos em duas manchetes da imprensa: “Alunos da rede pública terminam ensino médio sem saber porcentagem” (1) e a “Taxa de retorno ao sistema prisional entre adultos é de 42%, aponta pesquisa”. (2)
Mas esta onda liberalizante cresceu e se aprofundou, atingindo os dosséis sagrados da fé cristã. Foram surgindo reinterpretações da Bíblia com o objetivo de “modernizá-la”. A Xuxa sugeriu reescrevê-la, bem como algumas lideranças eclesiásticas de destaque na mídia, para tornar as práticas cristãs mais flexíveis e palatáveis para a sociedade atual.
O Deus da Bíblia não é tão flexível assim. Ele ama, perdoa, acolhe, soergue, mas sempre exige mudança de conduta. À mulher adúltera (João 8), ele perdoou. Sabia de suas condições limitantes numa sociedade que não lhe era favorável, controlada pela falsidade dos mestres da Lei e dos fariseus, ainda assim, mesmo tendo compaixão, não acobertou o erro dela, mas determinou: “Eu também não te condeno; vai, e não peques mais”. Compaixão não significou tolerância ao erro.
A revelação divina é progressiva: o Antigo Testamento preparou o caminho para o Novo, que trouxe luz e novos preceitos. Algumas determinações veterotestamentárias que hoje soam inconcebíveis, eram as necessárias para o projeto que Deus criou, que era o de estabelecer um novo projeto para a humanidade. A chegada do Messias trouxe uma nova revelação, e por conseguinte, novos preceitos para uma outra realidade, que só findará com a volta de Cristo. Deste modo não há espaço, nem necessidade, para a criação de um Novíssimo Testamento.
É claro que uma transposição de dois mil anos precisa passar por um crivo hermenêutico cultural. Há situações que são relatadas em um contexto histórico, e que precisam ser entendidas, à luz dos “absolutos” de Deus, que são as verdades imutáveis e permanentes, e que são o padrão de conduta para o Cristão em qualquer época ou cultura. Para nos socorrer nas interpretações que transpassam nossa época, temos um companheiro inerrante, que é o Espírito Santo de Deus.
Isto posto, entendemos que não há nada que precisemos flexibilizar valores, para aplicar os princípios da Bíblia à nossa vida prática diária. Temos um Deus que nos ama, mas que também nos disciplina e, na rebeldia, nos condena e pune. Diferentemente de nós pais, que tendemos a superproteger nossos rebentos, para que não sofram ou se sintam rejeitados, o Deus Eterno não se furta a disciplinar ou mesmo punir os seus filhos.
Jesus era muito bom, mas não era “bonzinho”. Ele pregava o amor, mas também exercia autoridade: expulsou os vendilhões do templo, confrontou os líderes religiosos chamando-os de raça de víboras e sepulcros caiados. Ele não tinha opção preferencial pelos pobres ou ricos. A Ele interessava os que tinham um coração contrito. Atendeu à viúva pobre e ao rico cobrador de impostos, Zaqueu. Ele zelava pelo verdadeiramente arrependido. Era, e é, justo.
Diferentemente ao que alguns proclamam, não há respaldo bíblico para uma anistia ao final dos tempos, ou da nossa existência, por meio de uma salvação universal (Apocatástase), que pode parecer “mais justa”, como o é a doutrina da reencarnação, porém o apóstolo Paulo é claro: “Não se enganem: ninguém zomba de Deus. O que uma pessoa plantar, é isso mesmo que colherá”. (Gálatas 6.7).
Em tempos de flexibilização moral, lembremos: Deus ama, mas também castiga. Por fim, recomendo uma leitura reflexiva de alguns versículos de Hebreus 12:
“Será que vocês já esqueceram as palavras de encorajamento que Deus lhes disse, como se vocês fossem filhos dele? Pois ele disse: “Preste atenção, meu filho, quando o Senhor o castiga, e não se desanime quando ele o repreende. Pois o Senhor corrige quem ele ama e castiga quem ele aceita como filho.” Suportem o sofrimento com paciência como se fosse um castigo dado por um pai, pois o sofrimento de vocês mostra que Deus os está tratando como seus filhos. Será que existe algum filho que nunca foi corrigido pelo pai? Se vocês não são corrigidos como acontece com todos os filhos de Deus, então não são filhos de verdade, mas filhos ilegítimos. No caso dos nossos pais humanos, eles nos corrigiam, e nós os respeitávamos. Então devemos obedecer muito mais ainda ao nosso Pai celestial e assim viveremos. Os nossos pais humanos nos corrigiam durante pouco tempo, pois achavam que isso era certo; mas Deus nos corrige para o nosso próprio bem, para que participemos da sua santidade. Quando somos corrigidos, isso no momento nos parece motivo de tristeza e não de alegria. Porém, mais tarde, os que foram corrigidos recebem como recompensa uma vida correta e de paz.” (NTLH)
Elias Brito Junior é mestre em teologia – Concentração em Igreja e Sociedade
1. https://www.poder360.com.br/educacao/alunos-da-rede-publica-terminam-ensino-medio-sem-saber-porcentagem/
2. https://www.conjur.com.br/2020-mar-03/42-adultos-retornam-sistema-prisional-aponta-pesquisa/