O Espetáculo que não deveria existir

Câmara dos Deputados (Crédito: Marcelo Casal, Agência Brasil)

As últimas sessões da Câmara dos Deputados, neste final de ano, revelam um problema que já deixou de ser episódico: o plenário, espaço destinado ao debate político, alguns deputados tem transformado em palco de ofensas, palavrões, acusações descontroladas e, por vezes, violência física. Não é exagero dizer que, em algumas tardes, a cena lembra mais um octógono improvisado do que a Casa que deveria representar a maturidade democrática do país.

Agressões, empurrões e gritos

As imagens registradas nas últimas semanas mostram parlamentares aos gritos, cadeiras sendo derrubadas, agentes da Polícia Legislativa segurando deputados pelo pescoço, empurrando outros para fora, e criando barreiras humanas que, involuntariamente ou não, também afastam jornalistas. São momentos que ferem não apenas o decoro, mas o próprio sentido de Poder Legislativo, que não combina com a democracia.

Jornalistas do lado de fora

O episódio de Glauber Braga, removido à força após ocupar a cadeira da Presidência, marcou um divisor de águas. O corte repentino do sinal da TV Câmara, a emissora que existe justamente para garantir transparência, e a ordem para retirar a imprensa, soam como retrocesso institucional. Aqui não se trata de defender a censura, mas de reconhecer que impedir jornalistas de registrar o ocorrido vai na contramão da democracia. Um poder que se diz plural não pode agir como se tivesse algo a esconder.

Transparência é obrigação

É preciso cuidado com o discurso fácil de “controlar” o conteúdo exibido para evitar constrangimentos públicos. Esse caminho, ainda que tentador para quem protagoniza tumultos, beira um precedente perigoso. A resposta não está em limitar o que o público ver, mas em limitar o comportamento que gera as cenas. O problema é a conduta, não a transmissão.

Risco da faixa etária na telinha

Se o ritmo seguir como está, a TV Câmara, que nasceu com a missão nobre de aproximar o cidadão do Parlamento, pode acabar anunciando algo digno das velhas sessões de cinema: “Classificação indicativa: impróprio para menores de 18 anos”. Não por causa de temas complexos ou debates densos, mas por causa do nível das agressões verbais e físicas.

Instituições fortes têm limites claros

Não se exige puritanismo, mas decoro mínimo. Não se pede unanimidade, mas civilidade. A democracia aguenta o confronto de ideias; o que ela não aguenta é a transformação sistemática do plenário em espetáculo grotesco. Cabe aos líderes, à Mesa Diretora e aos próprios parlamentares recuperar a compostura institucional. Talvez o recesso leve os deputados a uma reflexão necessária e urgente.

Parlamento que o Brasil precisa ver

O país não está carente de emoção, está carente de responsabilidade. As câmeras não são culpadas pelas cenas; apenas registram o que realmente acontece. Tornar o plenário um ambiente minimamente respeitável é o primeiro passo para que a TV Câmara continue sendo o que deve ser: um instrumento de transparência, e não um classificador de faixas etárias. O Natal e o Ano Novo podem ser bons momentos para que alguns parlamentares façam uma boa reflexão sobre isso.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa