Pedro Westphalen (Crédito: Vinicius Loures, Câmara dos Deputados)
O governo Lula intensifica sua aposta nos mutirões de saúde, apresentando o programa como resposta ao longo tempo de espera por consultas especializadas no SUS. Em meio ao desgaste de popularidade e à pressão por entregas concretas, a Presidência tenta transformar a área da saúde em vitrine positiva para a eleição de 2026. A movimentação, porém, não é inédita — e nem original.
Projeto que dormiu nos gabinetes
O deputado Pedro Westphalen (PP/RS), médico e presidente da Frente Parlamentar Mista dos Serviços de Saúde, lembra que a base do projeto já existia. Ele mesmo protocolou, ainda em 2019, uma proposta que permitiria aos hospitais com dívidas junto à União quitá-las por meio da prestação de serviços ao SUS — exames, cirurgias, consultas. A proposta era pragmática: aproveitar a estrutura já existente, com capacidade ociosa e custo fixo, para gerar atendimento e reduzir a fila da saúde, sem criar um novo passivo fiscal.
O importante é acontecer
A ideia, segundo o parlamentar, foi ignorada por sucessivos governos. O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, por exemplo, chegou a sinalizar apoio, mas saiu do cargo antes de avançar. Veio a pandemia, e o projeto, como tantos outros, foi engavetado. Agora, nas mãos do ministro Alexandre Padilha, ganhou nova roupagem e apoio presidencial. Westphalen reconhece a importância do avanço, sem entrar em disputa de paternidade: “O importante é acontecer”, diz.
Dívida como solução
A lógica por trás do projeto é simples: transformar dívida em solução. Em vez de apenas cobrar os hospitais conveniados, a União poderia autorizar o pagamento com trabalho prestado, o que movimenta a rede, desafoga a fila e evita o fechamento de instituições por falta de recursos. Na prática, um hospital com dívida de R$ 100 milhões, por exemplo, poderia pagar parte em dinheiro e o restante com a realização de procedimentos já previstos no rol do SUS.
Aproveitar capacidade
É um modelo que aproveita a capacidade instalada do país e evita novas obras ou convênios improvisados. Mais do que isso, permite que o governo injete recursos indiretos na saúde sem romper o teto de gastos ou criar novos subsídios — algo que, em ano pré-eleitoral, seria um complicador político.
A saúde como marketing
É evidente que a iniciativa carrega também o selo da estratégia eleitoral. A imagem de Lula ao lado de pacientes, médicos e ministros em ações de saúde será amplamente explorada nos próximos meses. A busca por propaganda positiva não é pecado político — é parte do jogo. Mas não pode ser o único norte da política pública.
Atualizar tabela do SUS
Para que o mutirão não seja apenas uma onda passageira de atendimento, é necessário que o modelo seja institucionalizado. Isso implica rever o financiamento do SUS, atualizar a tabela de procedimentos, valorizar os profissionais da saúde e — como defende Westphalen — consolidar parcerias com quem já está na linha de frente, mesmo que tenha dívidas a resolver.
O desafio é fazer durar
O Brasil tem um histórico de programas bem-intencionados que morrem na burocracia ou na virada de governo. Se o atual mutirão se limitar a uma ação pontual, com fins midiáticos, não mudará o quadro estrutural da saúde pública. Mas, se for levado a sério, pode representar o início de uma política mais ousada: aquela que vê na dívida uma oportunidade de produzir cuidado, e não apenas um problema contábil.
Realizações permanentes
No fim das contas, o que importa é que o paciente saia da fila e entre no consultório. E que a saúde pública deixe de ser um campo de promessas para se tornar, enfim, um campo de realizações permanentes.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa