
Ao pé da montanha, os futuros apóstolos aprendem a lidar com pessoas. Não é tarefa simples, até mesmo quando se trata de organizar uma multidão de simpatizantes seguidores. Contudo, organizam como podem.
O sermão do Mestre chega ao fim. Ninguém convencia os que têm fome e os doentes a voltarem para suas casas. A multidão de seguidores do jovem pregador reclamava da falta de comida. O Nazareno, sorridente, provoca: “Vamos lá, Pedro! João, Tiago…Dai-lhes vós de comer!” Tomé opina com suas conjecturas: “É bem provável que em suas casas não haja pão nem vinho, senão já teriam voltado.” Marcos entra na discussão: “Mestre, têm muitos doentes aqui em estado gravíssimo. Sozinho não consigo atender a todos. Impossível!” A impaciência faz os discípulos mandarem todos calarem a boca. Jesus adverte: “As pedras podem clamar, se eles fizerem silêncio!” Tomé se espanta: “As pedras?” João dá a sua sugestão: “Vamos ensinar sobre a ressureição, arrebatamento, eternidade, Reino do céu, ruas de ouro…? Que tal?” Tomé fica impaciente: “Discursos? Acreditar em discursos? O povo precisa de médico e comida. A fila dos doentes é tão grande quanto a fila dos famintos. Não é hora de discursos.”
Paralíticos, cegos, leprosos, cercam Jesus, o Nazareno. Gritos pedindo cura. Um deles é o grito de Bartimeu, um conhecido cego da região. O Mestre o atende. Surgem correndo as irmãs de Lázaro, Marta e Maria, e clamam que o irmão seja socorrido.
Jesus pede: “Calma! Um de cada vez!” Mas é Lázaro, o amigo de Jesus, quem está dando os últimos suspiros. Jesus continua conversando. Bartimeu ouve os ensinamentos sem interromper o Mestre. Outros doentes o cercam. Caminham em direção à casa das irmãs de Lázaro. Ao chegarem, só silêncio. Alguém critica: “O Mestre Nazareno chegou novamente atrasado. Já enterraram o seu amigo. Que indolência!”
Jesus, o amigo de Lázaro e de suas irmãs, tira o pó das sandálias. Ele ouve a bronca de Marta, inconformada. Ele responde com silêncio. Ela desabafa: “Se o senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido.” Jesus ouve a reclamação e lágrimas descem de seu rosto. Com autoridade, a voz rouca, quase sussurrando ele chama a atenção de Marta:“O seu irmão vai ressuscitar. Acalme-se Ele vai ressuscitar!” Ela não ousa criticar o ensino do Mestre.
Olhando em seus olhos, abaixa a cabeça e diz, chorando: “No último dia? Só no último dia?” Jesus ouve a pergunta a caminho da sepultura.
Bartimeu e as famílias de Lázaro e do filho da viúva de Naim encontram um Mestre que gosta de conversar e ensinar, mas sem pressa. Alguns dizem que o fracasso da nova igreja pode surgir da indolência do Mestre. A missão de fundar uma igreja era sonho. “Fundar uma comunidade de seguidores com esse novo mandamento sem agilidade? Só com amor? Não vai dar certo”, criticam os sacerdotes. “Esse Mestre conversa muito e cura pouco.”
A nova seita está destinada a não durar muito tempo. A comunidade de crentes no Nazareno vai naufragar no mar da incompreensão. Jesus prossegue sem dar muita confiança às críticas. Cura os enfermos, alivia a dor dos aflitos e prossegue pelos caminhos.
Em cada cura Jesus ensina sobre a restauração do ser humano. Se a eternidade é o ambiente da perfeição, ela é mais forte que a morte. A morte não é o fim.
O conceito de passagem do tempo na mente de Jesus é diferente. Por isso, não existe “cura atrasada”.
O pêndulo balança entre doença e cura, vida e morte, no tempo humano. A vida é eterna; sem passado, sem futuro. Jesus é o “eu sou” para os errantes do passado e esperança do ser perfeito para quem quiser crer na vida futura.
Jesus dá saúde aos crentes e descrentes, mas não cura a todos. Um exemplo disto: duas pessoas sofrem. Uma delas está cercada de parentes e amigos que acreditam nas promessas do Mestre de Nazaré.
Na cama ao lado, uma pessoa enferma não é religiosa. Sem nenhuma crença religiosa. A pessoa enferma que está cercada de pessoas crentes, vê esvair-se a sua esperança. E a luta pela saúde chega ao fim. Não tem a sorte da cura e morre. A pessoa enferma que não é religiosa recebe a liberação hospitalar contrariando as expectativas e vai para casa com as forças renovadas. Na esteira dos milagres, a imparcialidade na cura independe de status religioso. Todos podem ser curados. A cura alcança não somente crentes. Mas, nem todos são curados.
A situação entre os discípulos não é pacífica. A base de sustentação do pequeno grupo de seguidores de Jesus Nazareno está trincada. Pedro nega a amizade com Jesus e Judas rompe com o grupo de discípulos, traindo a confiança do Mestre. Um beijo, sem nenhuma verdade afetiva, é o que Judas precisa.
Ele aponta para os soldados romanos, mostra quem é o pregador das heresias, indo contra o que Moisés ensinou. Jesus é preso. Não foram necessários muitos soldados para prender Jesus. O ensinador Nazareno abraçou, perdoou. Salvou ladrões e prostitutas. Sob os olhares desconfiados dos sacerdotes, doentes foram curados e mortos ressuscitados. O ódio cresceu enquanto Jesus curava e aliviava a dor dos que sofrem. A viúva da cidade de Naim levou o féretro do filho para ser sepultado, evitou passar entre os maldizentes com seus comentários injustos, críticas levianas contra o Salvador: “Lá vai a viúva, seguidora daquele Nazareno que sempre chega atrasado”.
O Mestre é levado preso para as autoridades. Os discípulos se entristecem. Comentam que o Mestre vai fazer falta. “Não é justo prender quem gosta de responder perguntas e conversar. ”Lembram que, um dia Jesus conduziu um cego para o centro da discussão. Nas atitudes de Jesus notava-se o interesse em explicar antes de curar. Aprender com a dor, antes da cura, é mais importante do que receber a cura da dor.
“Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que nascesse cego? ”Jesus respondeu: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus”. Os discípulos de Jesus ficaram extasiados com a resposta.
Os discípulos lembram que o Mestre arriscou a sua reputação ao perguntar o óbvio. O Nazareno perguntou: “Que queres que eu te faça?” Afinal, quem se propõe a curar um cego, antes, deve enxergar o mal. O médico que não enxerga a doença conseguirá saná-la? O cego respondeu a pergunta óbvia de Jesus com uma resposta não menos óbvia: “Que eu veja! A cura de Jesus tinha um efeito que ensinava; “Ele é Maravilhoso mesmo!”, comentou Marcos e acrescenta: “Jesus confere validade para as certezas, até mesmo ausentes de provas; confirma a validade das convicções, mesmo desprovidas de conclusões lógicas. Jesus não só cura como também liberta o homem de si mesmo. Ele disse para o cego já está curado: Vai…!”
A cura se estende na retomada da direção, envolvendo significados, causa e propósitos. Alcançar entendimento sugere corrigir a direção, evitar a colisão, o irreparável fracasso. Se a dor sem culpa é inevitável, busque alento nas melhores respostas do entendimento, apesar das circunstâncias.
Judson Santos é Escritor, Professor e membro da Academia Evangélica de Letras do DF