
A relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso atravessa seu pior momento desde o início do governo Lula. A cada semana, o desgaste com a cúpula do Legislativo aprofunda o afastamento entre os Poderes e sinaliza ameaças diretas à agenda do Executivo, especialmente às votações essenciais para o Orçamento de 2026. O episódio mais recente, a cerimônia de anúncio da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, expôs um mal-estar que já vinha crescendo silenciosamente.
Ausências que falaram alto
A solenidade no Palácio do Planalto contou com ministros, assessores e lideranças da base. Mas dois assentos vazios chamaram mais atenção do que todos os discursos: os de Hugo Motta, presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Nenhum dos dois apareceu, e nenhum deles fez esforço para disfarçar o recado.
Outros compromissos
A assessoria de Motta alegou “compromissos de agenda”. Já Alcolumbre sequer justificou a ausência. Nos bastidores, porém, a leitura é unânime: trata-se de um gesto de insatisfação com o governo e com a condução política do Palácio. O clima azedou de vez depois da entrevista de Motta à Folha de S. Paulo, na qual o presidente da Câmara afirmou que rompeu relações com o líder do PT, Lindbergh Farias, acusando o petista de tentar “desgastar a imagem da Câmara” e de agir como defensor irrestrito do governo, inclusive contra entendimentos internos.
Alcolumbre reage e aciona a “pauta-bomba”
Do lado do Senado, o desgaste foi amplificado pela indicação de Jorge Messias à vaga do Supremo Tribunal Federal. Alcolumbre, que preside a CCJ e controla o ritmo das sabatinas, ficou irritado por não ter sido avisado antecipadamente e por ver seu aliado, Rodrigo Pacheco, ser preterido. Como retaliação, o Senado aprovou por 57 a 0 um projeto que concede aposentadoria especial a agentes comunitários de saúde e de combate a endemias, uma típica pauta-bomba, com impacto estimado pelo governo em R$ 40 bilhões em 10 anos. A mensagem política foi clara: o Senado tem meios de pressionar.
Taxação de bets e fintechs
Ao mesmo tempo, a CAE adiou a votação do projeto que amplia a taxação de bets e fintechs, uma das principais apostas da Fazenda para reforçar a arrecadação. Outro sinal de tensão.
Messias em risco: a batalha de 41 votos
A maior preocupação do Planalto hoje é a sabatina de Jorge Messias, marcada por Alcolumbre para 10 de dezembro. O advogado-geral da União terá menos de 15 dias para articular os 41 votos necessários no plenário do Senado.
Dificultar a vida do governo
A leitura interna é que Alcolumbre marcou a sabatina de forma acelerada justamente para dificultar a vida do governo. Na CCJ, Messias precisa de 14 dos 27 votos, placar que normalmente seria confortável, mas que agora se tornou incerto. Senadores da própria base admitem que o cenário é apertado.
Prova de fogo no plenário
Superada essa etapa, o plenário será a prova de fogo. O indicado já iniciou uma peregrinação pelos gabinetes, buscando apoio especialmente entre parlamentares evangélicos e independentes. Mesmo assim, há resistência. O Planalto avalia que Lula deverá intervir pessoalmente, chamando Alcolumbre para uma conversa e tentando ganhar tempo para que Messias avance nas negociações.
Governo tenta conter danos
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, adotou discurso otimista, afirmando que “tudo será superado” e que o governo terminará o ano com o orçamento equilibrado e as medidas aprovadas. Já o secretário-executivo da pasta, Dário Durigan, deixou o tom mais duro ao admitir que o governo poderá recorrer ao Judiciário caso novas pautas-bomba avancem.
Randolfe apela ao diálogo
O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, tenta baixar a temperatura. Disse que é impossível imaginar o governo sem diálogo com Alcolumbre, lembrando que o senador foi decisivo para aprovar a PEC da Transição e duas indicações anteriores ao STF.
Retaliações e riscos adicionais
Além das ausências na cerimônia e da pauta-bomba, o Congresso derrubou vetos de Lula na lei de licenciamento ambiental. No programa de renegociação das dívidas dos Estados, novos sinais de reaproximação do Legislativo com a agenda própria, e não com a do governo.
Articulação fragiliza base aliada
No Palácio do Planalto, a ordem é tentar impedir que o ambiente político piore antes da votação do Orçamento. Mas a percepção dominante no Congresso é de que o governo tem falhado na articulação e perdido terreno entre aliados tradicionais.
Um fim de ano de tensão máxima
Com Messias sob risco de rejeição, Alcolumbre afastado, Hugo Motta rompido com o líder do PT e o Congresso reagindo com votações independentes, o governo Lula enfrenta seu momento mais delicado de articulação. Se o Planalto não conseguir recompor o diálogo, as derrotas podem se multiplicar, e o impacto será direto na pauta econômica e na governabilidade em 2026.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa